O Fenômeno Pluralista*

*por João Batista Cichero Sieczkowski

Pluralismo significa que há várias maneiras de ver a realidade.

Para Berger, o pluralismo não é um fenômeno na mente de um pensador filosófico, mas um fato empírico na sociedade experimentado por pessoas comuns, que são mais numerosas do que os filósofos.

Este é o duplo significado de pluralismo: como uma simples descrição dos fatos sociais e como uma ideologia.

O sufixo “ismo” sempre sugere uma ideologia. Dessa forma, o melhor termo para Berger é pluralidade e não pluralismo. Contudo, ele usa muito o termo pluralismo.

Diz Berger: Pluralismo é uma situação social na qual pessoas de diferentes etnias, cosmovisões e moralidades vivem juntas pacificamente e interagem amigavelmente.

Para que haja pluralismo deve haver conversação constante.

O processo de contaminação cognitiva: se as pessoas continuam a falar umas com as outras, elas se influenciarão umas às outras. Alcançam assim um compromisso cognitivo.

Duas teses são importantes aqui: (a) a contaminação cognitiva relativiza; (b) o pluralismo produz contaminação cognitiva;

Responde à questão: o que acontece quando as pessoas se veem diante de supostos fatos que contradizem aquilo em que elas acreditavam anteriormente?

Berger fala aqui de barganha cognitiva, ou seja, estratégias para evitar: negar a validade da informação; atacar os motivos pessoais dos portadores da informação; remover fisicamente de cena os portadores da informação ou ele próprio ser forçado a retirar-se de cena; por fim, convertê-lo ou matá-lo;

A relativização ocorre quando alguém se comporta visivelmente de maneira diferente daquilo que o outro aceitava normalmente como sendo o comportamento apropriado.

A relativização se intensifica se o desafiador verbalizar o desacordo.

Portanto, o processo de relativização inicia com várias formas de interação de diferentes cosmovisões e comportamentos;

A relativização é a compreensão de que a realidade pode ser percebida e vivida de uma maneira diferente daquela que alguém pensava ser a única forma possível.

Assim, o pluralismo provoca uma situação na qual a relativização se torna uma experiência permanente.

A relativização permite a possibilidade de escolha. A pergunta agora é: como a pessoa escolhe quem ela é? Assim, a vida é um processo de redefinir quem o indivíduo é no contexto das possibilidades aparentemente infinitas apresentadas pela modernidade.

Para compreender o processo de escolhas, precisamos considerar que os indivíduos humanos tem um escasso repertório de instintos que lhe digam o que fazer.

De forma que, se o indivíduo tivesse que escolher o que fazer toda vez que tivesse que agir, então ele seria esmagado pela indecisão.

Para compensar essa pobreza de instintos, os homens desenvolveram as instituições.

Decorre daí que o indivíduo pode agir quase que automaticamente e sem muita reflexão. Ele está livre para fazer escolhas.

Temos assim:

(a) o destino é o plano de fundo: que é a instituição, o que está institucionalizado;

(b) o reino das escolhas é o Primeiro Plano: o que está desinstitucionalizado;

Se a sociedade toda fosse um plano de fundo, seríamos programados feitos robôs;

Se, por outro lado, a sociedade toda fosse um primeiro plano, teríamos que fazer escolhas todos os dias e a sociedade social chegaria a uma parada brusca;

Não esqueçamos: o pluralismo é um fator na multiplicação das escolhas. Ele, o pluralismo, ajuda muito na expansão do primeiro plano (reino das escolhas) à custa do plano de fundo.

Mas, qual é o problema dos relativistas? O problema encontra-se na seguinte questão a ser respondida:

Como explicar que somente eles (os relativistas) veem a realidade da maneira que é enquanto que todos os demais (que não são relativistas, talvez fundamentalistas?) estariam tropeçando em um nevoeiro de ilusões?

(1) Essa questão implicaria em uma teoria da falsa consciência, ou seja, por que tanta gente está a tropeçar em suas ilusões?

(2) E em uma teoria do privilégio cognitivo: por que o relativista está certo daquilo que ele diz ser a realidade?

Se esconde aí uma questão ética: Marx era um burguês, como conseguiu escapar da falsa consciência da sua classe? Precisa-se de uma teoria da consciência revolucionária, que talvez fosse muito mais uma teoria ética do marxismo.

Mesmo que o partido esteja certo e não esteja preso a falsa consciência, que não é o caso de parte da classe proletária, pode-se cair em (2), por que o partido estaria mais certo daquilo que pensa ser a realidade?

A maioria das pessoas vivem no meio-termo: não são nem fundamentalistas e nem relativistas 100%. A maioria das pessoas vive no pluralismo administrando-o pragmaticamente, ou seja, viver-e-deixar-viver.

O indivíduo está entre a desinstitucionalização e as velhas instituições que dão tudo como certo. Na desinstitucionalização o indivíduo se obriga a empreender a tarefa difícil e inquietante de construir o seu próprio pequeno mundo, como diz Berger. E, na institucionalização, os indivíduos são mais frágeis e menos seguros. O meio caminho foi as instituições intermediárias que preenchem a lacuna.

Até aqui se falou de sociedades modernizadas e pluralistas, em que há modos de vida diferentes valores diferentes, cosmovisões diferentes, e bem pouco sobre a religião. Houve uma preocupação maior de apresentar o pluralismo e suas consequências. Pois, a religião não está distante deste quadro. O pluralismo é o grande desafio da religião. Como pode coexistir comunidades étnicas, morais e religiosas em uma única sociedade? Assim, não somente o relativismo e o fundamentalismo são problemas, mas também o pluralismo por querer o meio termo entre os dois.

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