SOBRE A NOÇÃO DE TRABALHO EM PETER BERGER

POR JOÃO BATISTA C. SIECZKOWSKI*

Se há um conceito que não aparece nas obras traduzidas para o português de P. Berger é o de trabalho. Aqui reportaremos sobre o problema do trabalho em Berger em um artigo baseado em seu livro de 1964 “The Human shape of work” – não traduzido para o português. Em português o artigo é de 1983 e aparece com o título de “Algumas observações gerais sobre o problema do trabalho” de Berger.

Podemos colocar o problema de Berger em seu texto da seguinte maneira: Pode um faxineiro vir a ser o que um executivo é? Portanto, é a resposta a um tentar ser o que não se é. Algo parecido com esta pergunta, é o que Berger vai chamar de o problema da significação do trabalho como categoria humana fundamental.

É preciso entender em primeiro lugar, a origem da palavra trabalho. Durante toda a existência humana, ou seja, do período Neolítico até a Revolução Industrial, o trabalho representou e representa uma transformação da existência humana. No início, o trabalho esteve envolvido em significação religiosa. Essa significação religiosa pode ser compreendida como repetição ou imitação de atos divinos, apontando para o como o mundo foi inicialmente entendido, explicado e construído. Assim, trabalhar é imitar a própria criação, como sintetiza Berger (1983). Trabalho é imitar os deuses. Mais ainda, trabalhar é um dever religioso e o sofrimento um destino do homem.

O termo Trabalho em sua versão hebraica é serviço (avodah). Em grego, trabalho é leitourgia tem um significado semelhante. Em latim, trabalho é labor, ou seja, trabalho como esforço fatigante, que seria o sentido geral de sofrimento. Em português, espanhol, francês e inglês, vêm da palavra trepalium, referindo-se ao instrumento de tortura.

Berger, então, vai situar o problema do trabalho, ou seja, a significação do trabalho como sua versão moderna ou como um fenômeno particularmente moderno. É o problema do significado do trabalho que está em pauta. As transformações que tornaram possível na sociedade, que o trabalho se tornasse um problema foram, segundo Berger (1983): (a) a divisão do trabalho na Revolução Industrial; (b) a secularização do conceito de vocação. Berger passa a discorrer sobre essas transformações.

Quanto a divisão do trabalho na Revolução Industrial, Berger caracteriza a revolução Industria da seguinte maneira: (a) a Revolução industrial intensificou a divisão do trabalho; (b) Estamos ainda no meio desse processo de transformação; (c) trouxe sempre uma crescente fragmentação dos processos específicos de trabalho; (d) distancia sempre mais o trabalhador do produto de seu trabalho.

Então, advém a pergunta:  qual é a significação do trabalho para um trabalhador que não compreende e não conhece o processo de trabalho até o seu produto final? Portanto, não vem ao caso se o trabalho é penoso ou duro para o trabalhador. Essa questão da significação puxa uma outra: a questão da satisfação no trabalho. 

O trabalho também é fonte de auto-identificação. Assim, os homens são aquilo que eles fazem. Cada um faz aquilo que gosta. E, aquilo que eles gostam, é o que molda o seu agir. A auto-identificação dá estabilidade, consistência e reconhecimento perante os outros. A auto-identificação dá uma personalidade ao trabalhador.

Mas, há trabalhos que não dão nenhuma auto-identificação ao trabalhador. Ora, o que significa ser um operador de máquina, ou um técnico de eletroencefalografia? O trabalho fragmentado, diz Berger, tende… a divorciar-se daquelas relações sociais e eventos dos quais o indivíduo deriva a sua auto-identificação. Esse é o primeiro resultado do impacto da Revolução Industrial no trabalho e no trabalhador. Em segundo lugar, a luta por status entre um grande número de ocupações. É uma luta selvagem que se define pela busca de status e identidade no trabalho. Projetar uma imagem própria pode ter como resultado vantagens econômicas e sociais. Portanto, status significa autopromoção. E, cargos, funções, postos, etc., existem só em função da autopromoção.

Em terceiro lugar, a cristalização da chamada esfera privada da vida. Essa esfera privada possibilita ao indivíduo uma auto-identificação e significado pessoal. Mas, esta esfera privada é separada do trabalho. Ou seja, as pessoas não trabalham no mesmo local onde se dão suas vidas privadas. Elas não moram onde trabalham. A nível de identidade, o indivíduo separa o seu autêntico eu do seu eu no trabalho.  Separa a família do trabalho. O verdadeiro e real eu fica na família. Sendo que, no trabalho a vida é uma pseuda-realidade e uma pseudo-identidade. Uma coisa é ser um agente econômico produtivo outra coisa é ser um agente econômico consumidor. No trabalho apenas se representa um papel. Não somos nós mesmos. Enfim, há uma moralidade dupla: uma moralidade privada e uma moralidade pública. A ética é apropriada a realidade dominante, ou seja, da circunstância. Essas consequências da Revolução Industrial mostram o tanto que mudou o caráter humano.

Berger, então sugere uma classificação do trabalho em três categorias: (a) o trabalho que ainda dá ocasião para auto-identificação primária e um comprometimento do indivíduo. Nessa categoria se incluem as profissões liberais e as camadas superiores das posições existentes nos aparatos burocráticos; (b) no outro pólo está o trabalho que é uma verdadeira ameaça a auto-identificação, uma indignidade, uma opressão. Essas ocupações não requerem talentos especiais. Elas pertencem ao porão do sistema industrial; (c) entre o primeiro e o segundo pólo encontra-se o trabalho que não é nem realização e nem opressão. O trabalhador aqui nem se alegra e nem se entristece. É um limbo. Aqui as pessoas vão levando em detrimento a outras coisas que são mais importantes.  Pertence a essa camada o grosso dos trabalhadores industriais e também os trabalhadores de escritório e serviços. Eles consideram que suas vidas privadas são mais importantes do que o trabalho.

A grande relação existente é que (a) e (b) tem diminuído muito em relação a (c). Senhores e escravos diminuem e cresce a categoria (c), onde se tem menos prazer e menos pesar no trabalho. É neste momento que o problema da significação ganha destaque.

Quanto a secularização do conceito de vocação, deve considera-se como ideológico. A teoria de Max Weber sobre o conceito de vocação é o viés ideológico do trabalho na sociedade moderna. Em Weber, é claro que o conceito de vocação religiosa no medievo foi transformado no conceito moderno de trabalho secular como vocação. O conceito de trabalho secular como vocação requer um alto comprometimento ético e religioso do indivíduo. O trabalho agora é um dever religioso a ser cumprido fielmente, um chamado, em que o indivíduo deveria assumir apaixonadamente e completamente. Assim, o trabalhador não só dedicaria uma vida inteira, seus objetivos, seu tempo, mas sobretudo daria aí o mais alto significado à sua existência, à sua vida. É desse modo que o homem da Revolução Industrial se relaciona com o trabalho: investindo em atividades econômicas e tecnológicas. É dessa forma que o capitalismo nasce como sistema.

Hoje, esse conceito, segundo Berger, persiste de maneira secularizada. Não tem mais conotação de trabalho feito para “a maior glória de Deus”, mas continua como sendo portador de significados éticos e morais. Continua de forma secularizada. Essa forma seria: o trabalho proverá a realização última da vida do indivíduo. Portanto, o significado da vida está no trabalho.

Aqui, para Berger, reside um paradoxo entre a estrutura e a ideologia de trabalho: enquanto que pelo desenvolvimento estrutural chega-se a conclusão que é menos provável que o trabalhador, como indivíduo, se realize com o seu trabalho, empurrando-o a buscar a felicidade, a autorealização em outro lugar, transformando o trabalho em um exercício de um “chamado” para a representação de um papel, a ideologia de trabalho insiste em declarar que o trabalhador deve acreditar que seu trabalho é significativo e satisfatório para ele. Tal ideologia é promovida pela educação como instituição. O sistema educacional cria uma expectativa generalizada de uma realização mais plena e significativa em tudo que se pode fazer dentro do sistema.

Em resumo, o que precisa haver é uma adaptação da ideologia a estrutura. Enquanto o trabalho for considerado como um “chamado” para representar um papel, o problema da significação perdurará. E com isso perdurará nossa questão inicial: Pode um faxineiro vir a ser o que um executivo é?

Referência Bibliográfica

BERGER, P. Algumas observações gerais sobre o problema do trabalho. Revista de Administração de Empresas, Rio de Janeiro, jan./mar. 1983, p. 13-22,

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(*) Doutor em Filosofia PUCRS, Professor IFRS – Instituto Federal do Rio Grande do Sul;

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