A Ideia de Classe Social

Para que possamos entender o que é classe social é preciso entender o papel das classes sociais no capitalismo. Negar o conceito e o papel de classe social nas ciências sociais e especialmente na sociologia é abrir as portas para a despolitização. Levando em conta, em primeiro lugar, o capitalismo, a origem do conceito de classe social advém da noção de divisão do trabalho[i]. Na divisão do trabalho há os detentores dos meios de produção e aqueles que não detém os meios de produção. Quem detém os meios de produção e os produtos decidem a distribuição e o trabalho a ser realizado para a produção dos produtos. Quem não detém os meios de produção, dependem daqueles que detém os meios e o trabalho. Sendo assim, os que não detém nada, só podem vender a sua força de trabalho, porque precisa alguém para produzir ou fabricar os produtos utilizando os meios de produção. Ora, conclui-se que os primeiros, só mandam (dominantes) e os segundos só obedecem (dominados). Os que são dominados só produzem e os que dominam, vendem o que produzem. Os trabalhadores (dominados), ficam alienados pois só vivem para produzir e não conseguem usufruir do que produzem (mais-valia).  Em resumo, com a divisão do trabalho chega-se a uma divisão entre classe dominante e classe dominada. E, enquanto tiver classes sociais haverá luta de classes, mesmo que poucos ou nenhum pensador se preocupe com isso. Vejamos historicamente a ideia de classe social. A ideia de classe social não foi uma criação de Marx ou do marxismo. Documentos egípcios e na antiguidade grega tal ideia já aparece. Aristóteles dizia que na sociedade há escravos e homens livres. Em sua obra Política Aristóteles dividia os cidadãos em pobres, classe média e ricos. Na Idade Média, a hierarquia feudal era refletida na sociedade. Tomás de Aquino, por exemplo, dividia a sociedade em ordem sociais rígidas. Com a Revolução Francesa, a divisão em classes sociais era notável. A luta de classes era determinante da luta política. No século XIX, Adam Smith enumerava as classes sociais em: (a) agrária; (b) industrial; (c) assalariada; cuja fontes básicas de renda era, respectivamente: (a) a terra; (b) o capital; (c) o trabalho. Assim, o conceito de classe social está vinculado ao funcionamento da sociedade. Marx, irá dará uma dimensão científica ao conceito de classe e dará um papel de base de explicação da sociedade e de sua história. Contudo, não consegue ser tão rigoroso como foi com outros conceitos. A obra OCapital fica interrompida justamente na parte em que começava a abordar sobre as classes sociais. Isso gera confusões e contradições na construção do conceito. Para restaurar esse conceito de classes, é preciso compreender que antes de qualquer análise do conceito de classe, entender o processo de produção do capital (vol.I), o processo de circulação do capital (vol.II) e processo de produção capitalista em seu conjunto (Vol.III). Portanto, o conceito de classes é teórico em Marx, e surge a partir da análise de um determinado modo de produção. A questão de existir estas ou aquelas classes se resolve na análise do próprio modo de produção. Diz Marx: “A questão que imediatamente se coloca é esta: que é uma classe? A resposta a esta pergunta decorre da que demos a esta outra: que é que transforma os operários assalariados, os capitalistas e os proprietários de terras em fatores das três grandes classes sociais?”. Podemos em conclusão dizer que: os críticos de Marx reduziram a análise de Marx a um pensamento analítico, esquecendo de sua análise dialética. Esse esquecimento leva a críticas vazias e deslocadas pois diferencia e isola de seu contexto de análise o seu objeto de estudo. Hoje, a hipótese mais interessante seria a de ampliar o conceito de classe social. Ou seja, o conceito de classe social não pode se restringir a uma análise econômica para sua determinação, mas certamente envolveria outros aspectos. Em Poulantzas (1978), o conceito de classe se define simultaneamente no nível econômico, político e ideológico: “as classes sociais são conjuntos de agentes sociais determinados principalmente, mas não exclusivamente, por seu lugar no processo de produção, isto é, na esfera econômica” (Poulantzas, 1978, p.13). Contudo, como bem diz Galvão (2011), “Descartamos, por exemplo, a unidade entre nova pequena burguesiae pequena burguesia tradicional como uma mesma classe porque não se pode falar em uma ideologia comum pequeno-burguesa entre classes cuja inserção na estrutura produtiva é distinta: pequenos proprietários, de um lado, e assalariados, de outro (Olin Wrigth, 1981, p.55)”. Apesar desses entraves de análises marxistas, ampliar o alcance do conceito de classe social é algo que cabe bem para uma análise hodierna.


[i] Antes da divisão do trabalho, havia o artífice. O artífice é aquele que se preocupa com o trabalho bem feito, “pelo prazer da coisa benfeita”. Ele produzia e ele vendia, sem intermediários, ou seja, o artífice detém os meios de produção necessários para produzir algo. Com a divisão do trabalho, o processo produtivo muda para sempre. Diz Sônia (2002) neste sentido: “Nosso estudo destaca o trabalho executado mediante cooperação, a implantação da maquinaria e da grande indústria”. E, citando diz: “Marx (1985, 289), as máquinas “superam a atividade artesanal como princípio regulador da produção social.”

REFERÊNCIA

SANTOS, Theotonio dos. Conceito de Classes Sociais. Petrópolis: Vozes, 1987.

GALVÃO, Andreia. Marxismo e movimentos sociais. acesso em: 22 out 2022; disponível em:

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