A teoria da alienação em Marx

por João Batista C. Sieczkowski

Na crítica ao capitalismo de Karl Marx observamos que se define pela relação entre capital e trabalho. Entre capital e trabalho temos o produto expressos nos modos de produção internos e externos ao capitalismo. Agora, é importante perceber em uma relação de mais-valia, o trabalhador não recebe um salário suficiente que possa adquirir o produto por ele produzido. Portanto, o produto se torna estranho ao produtor. Há uma separação do homem (trabalhador) do seu produto. O produto se torna poderoso e estranho frente ao trabalhador. Aqui temos a alienação que deve ser entendida em conjunção com a categoria de estranhamento. Portanto, teríamos a exterioridade do trabalho em relação ao produtor, o que seria a alienação e o produtor se subjugando ao produto, que seria o estranhamento. Essas categorias são complementares, ou seja, o estranhamento é a consequência necessária da alienação do trabalho. Na venda do produto, o trabalhador se aliena de sua produção, na medida em que, o produto se torna estranho a ele por passar a pertencer a outro, sem que ele consiga adquiri-lo. Na teoria do conhecimento, costumamos diferenciar o sujeito do objeto do conhecimento. Levando em conta essa relação, diríamos que a objetivação do objeto e a alienação do sujeito aparecem intermediados pela categoria de estranhamento. Da alienação do sujeito para a objetivação do objeto, temos o estranhamento como elemento de vinculação. Da alienação do sujeito, provocado pela mais-valia, passa-se pelo estranhamento em que o produto deixa de pertencer ao trabalhador e torna-se de outro, terminando na objetivação, ou seja, na exteriorização completa do produto aos olhos de quem o produziu. Por sua vez, o objeto exteriorizado e materializado, torna-se independente de quem o produziu, na medida em que pertence a outrem. Somado a isso, temos o fato de que o trabalhador não tem condições de possuir o produto, pelo seu baixo poder aquisitivo. Há aqui duas situações: (a) o trabalhador que não tem poder aquisitivo de comprar o produto que ele produziu ou ajudou a produzir; (b) o trabalhador que vê seu produto ser comprado por outrem com maior poder aquisitivo que o seu, leva a triste conclusão de que toda essa relação desemboca em uma alienação e estranhamento de seu trabalho. Essa é a alienação/estranhamento propriamente dita. Em Marx, temos “Nos [Manuscritos Econômico-Filosóficos de 1844], a alienação foi descrita como o fenômeno através do qual o produto do trabalho “surge frente ao trabalho como um ente estranho, como uma potência independente do produtor.” (MARX, [1844]1976, p. 298)”[1] A tese de que alienação/estranhamento formam uma unidade de sentido, é criticada por alguns tradutores. Para Jesus Ranieri, tradutor dos Manuscritos, enquanto crítica de conjunto do sistema capitalista alienação e estranhamento estariam identificados. Assim, alienação seria uma categoria universal. No mais, os conceitos apareceriam com conteúdos distintos. Outro exemplo de defensor da tese de que alienação/estranhamento devam ser consideradas separadamente como categorias encontramos em Lukács na obra Para uma Ontologia do Ser Social (1981), onde situa objetivação e alienação   como   complexo   unitário   distinto   do   fenômeno   do   estranhamento. Ou seja, Lukács diferencia as categorias Alienação (Entäusserung) e Estranhamento (Entfremdung) como aparecem nos   Manuscritos, ambas traduzidas indistinta e frequentemente por alienação.[2] Braverman (1980), descreve a situação da seguinte maneira em seu livro Trabalho e Capital Monopolista: “Por um  lado, dizia-se que o trabalho moderno, em consequência da revolução científico-tecnológica e da “automação”, exige níveis cada vez mais elevados de instrução e adestramento, maior emprego da inteligência e do esforço mental em geral.” Diria que esse é o processo de alienação, enquanto que o processo de estranhamento seria descrito da seguinte maneira: “ao mesmo tempo, uma crescente insatisfação em relação às condições do trabalho industrial e administrativo parece contrapor-se a essa opinião. Isso porque também se diz que o trabalho tornou-se cada vez mais subdividido com operações mínimas, incapazes de suscitar o interesse ou empenhar as capacidades de pessoas que possuam níveis normais de instrução; que essas operações mínimas exigem cada vez menos instrução e adestramento; e que a moderna tendência do trabalho, por sua dispensa do emprego do “cérebro” e pela “burocratização”, está “alienando” setores cada vez mais amplos da população trabalhadora.”[3]  Conclusivamente, diríamos que o sentido de Alienação seria o de um processo de exteriorização, enquanto que o estranhamento seria um processo de internalização ou subjetivação. A alienação exterior produziria o estranhamento interior. Por sua vez, uma vez internalizado o estranhamento, ele seria externalizado como alienação. Simultaneamente, enquanto ocorre o processo de alienação, já decorre o processo de internalização, ou seja, o estranhamento. No avanço do processo, o estranhamento vai se exterioriza em alienação, fechando o círculo dialético. Mas, fica a questão: neste processo alienação-estranhamento e estranhamento-alienação, essas categorias aparecem juntas ou separadas? E a questão que considero mais importante: raciocinando dialeticamente, como recomendaria Marx e os marxistas consequentes, poderíamos falar dessas categorias juntas ou separadas?


[1] https://yorkspace.library.yorku.ca/xmlui/bitstream/handle/10315/39027/AAM.10.36311.2014.978-85-7983-596-4.p61-93.pdf?sequence=1

[2] http://www.verinotio.org/sistema/index.php/verinotio/article/view/31/21

[3] BRAVERMAN, Harry. Trabalho e Capital Monopolista. Ed. Zahar: Rio de Janeiro, 1980.

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