A condição epistemológica da produção social do conhecimento científico em Pierre Bourdieu

Por João Batista C. Sieczkowski*

Resumo

Este é um artigo sobre o pensamento sociológico de Pierre Bourdieu (1930-2002), especialmente sobre sociologia do conhecimento científico. Diz respeito aos conceitos de ciência e tecnologia. Na ciência, o importante é a questão do método, enquanto que na tecnologia a questão é a aplicação do método. A passagem da ciência para a tecnologia é intermediada pela objetividade. A objetividade não está necessariamente no método, mas sim na aplicação do método na realidade. Na questão do método, o importante é o problema da indução científica e o problema da demarcação entre o que é ciência e o que não é ciência. Na questão da aplicação do método, é o problema sobre os usos da tecnologia, o mais importante. Tudo isso sem perder de vista que a ciência é a sociologia e a tecnologia é o uso que se faz ou se fez desta ciência. O objetivo aqui é traçar um panorama do pensamento epistemológico de Bourdieu. Entre as questões levantadas por Bourdieu, uma das questões principais seria: sociologia é ciência ou não? A estrutura deste texto é a seguinte: primeiro, uma abordagem do que é ciência para Bourdieu; depois, o método como meio de validação do argumento sociológico; em terceiro lugar, a objetividade como meio entre o teórico, ou seja, a ciência, e o prático, ou seja, a tecnologia; quarto lugar, se afastando um pouco do pensamento epistemológico de Bourdieu, a aplicação do método ou sobre os usos da tecnologia, e por último, algumas considerações sobre a inovação.

Palavras-chave: ciência, metodologia, produção do conhecimento, validação do conhecimento;

Abstract

This is an article on the sociological thought of Pierre Bourdieu (1930-2002), especially on the sociology of scientific knowledge. It concerns the concepts of science and technology. In science, the important issue is the method, while in technology the issue is the application of the method. The transition from science to technology is mediated by objectivity. Objectivity is not necessarily in the method, but in the application of the method in reality. In terms of method, what is important is the problem of scientific induction and the problem of demarcation between what is science and what is not science. In the question of the application of the method, it is the problem about the uses of the technology, the most important. All this without losing sight of the fact that science is sociology and technology is the use made or has been made of this science. The objective here is to trace an overview of Bourdieu’s epistemological thought. Among the questions raised by Bourdieu, one of the main questions would be: is sociology a science or not? The structure of this text is as follows: first, an approach to what science is for Bourdieu; then, the method as a means of validating the sociological argument; third, objectivity as a medium between the theoretical, that is, science, and the practical, that is, technology; fourth, moving away from Bourdieu’s epistemological thinking, the application of the method or the uses of technology, and finally, some considerations about innovation.

Keywords: science, methodology, knowledge production, knowledge validation;

(*) Licenciado e Bacharel em Filosofia-UFRGS; Mestre e Doutor em Filosofia-PUCRS; Bacharel em Teologia-ULBRA; Atualmente Professor Substituto-IFRS (Campus Porto Alegre-RS).

Introdução

O que é uma sociologia reflexiva defendida por P. Bourdieu? A sociologia reflexiva está por detrás de toda a obra escrita e falada de Bourdieu. Diríamos que é uma condição ontológica do pensamento de Bourdieu.

Dessa forma, a sociologia reflexiva é a capacidade que uma instituição, um sujeito, um cientista, um sociólogo, etc., tem de “empreender uma reflexão coletiva sobre si própria” (1997). Nesta linha de raciocínio, entende-se que o cientista, o sociólogo, faz ciência ou sociologia e simultaneamente pensa a sua própria prática. Enquanto ele faz seu trabalho de campo, os próprios resultados da prática vão mudando ou transformando a sua teoria científica ou sociológica. Portanto, a sociologia reflexiva interioriza a prática do sujeito (cientista, sociólogo, etc.); e, em um segundo momento, a sociologia reflexiva exterioriza a prática do sujeito transformada ou modificada. Essa transformação ou mudança da prática do sujeito é a produção de uma teoria mais próxima da prática.

Ainda há uma dialética que permeia todo o pensamento de Pierre Bourdieu. Essa dialética é expressa em Bourdieu quando fala das duas dimensões do habitus: a interiorização da exterioridade, ou seja, a interiorização das estruturas do mundo social (Bourdieu,1987) e a exteriorização do interiorizado pelo habitus.

Dessa forma, na epistemologia, em um primeiro momento, o sujeito interioriza o objeto; e, em um segundo momento, o sujeito exterioriza o objeto já modificado ou transformado.

Aqui também a ciência interioriza o método, que é exterior a ela; e, depois, a ciência exterioriza o método, modificado ou transformado. A expressão ou comunicação dessa dialética estará na tecnologia, ou seja, naquilo que Bourdieu chama de senso prático.

Ora, especificamente dentro da ciência, o conhecimento científico produzido, interioriza a sua validação, ou seja, o conhecimento que pode ser atribuído o valor verdade (verdadeiro/falso); em um segundo momento, o conhecimento científico produzido exterioriza essa validação, sendo que esta se apresenta modificada ou transformada. O resultado dessa dialética é o método.

O método, por sua vez interioriza o conhecimento científico; em um segundo momento, o método exterioriza o conhecimento científico modificado ou transformado. O resultado dessa nova dialética é a objetividade.

A objetividade interioriza a subjetividade; e depois, a objetividade exterioriza a subjetividade modificada ou transformada. O resultado dessa modificação ou transformação é a produção de um novo modo de vida e de pensamento coletivo.

Essas diversas dialéticas que compõe este trabalho, objetivam dar um panorama da obra de Bourdieu em aspectos que consideramos pontuais. O problema que norteia é expresso na seguinte questão: a sociologia é uma ciência? E se o for, é como as outras ciências? Portanto, é uma questão metodológica-epistemológica. Assim, é esse aspecto que nos interessa dentro da obra de Bourdieu, é uma questão de epistemologia da ciências sociais (sociologia).

1. Ciência

Inicialmente, é preciso entender a contraposição entre validação e produção do conhecimento.

O ponto de partida não pode ser outro senão, aquele que coloca, de um lado, a validação do conhecimento e de outro, a produção do conhecimento. A ciência é pensada a partir da validação e da produção do conhecimento em Bourdieu.

A importância recai, no pensamento de Bourdieu, na produção do conhecimento, enquanto que na epistemologia dos países de língua inglesa, especialmente, a ênfase maior é na validação do conhecimento científico.

A ciência social ou sociologia é a ciência que procura refletir sobre a produção do conhecimento científico. A reflexão sobre a produção do conhecimento, remete a questão de quem faz ciência, enquanto que no contexto da validação do conhecimento a questão é outra: como se faz ciência. Perguntando pelo como se faz ciência, se pergunta pelo método. Perguntar por quem faz ciência é traçar o papel do cientista de uma perspectiva ética, política e social. Perguntar simplesmente pelo como se faz ciência é silenciar ou tirar a responsabilidade do sujeito, no caso, o cientista e da comunidade científica seja no aspecto ético e político, mas também no social.

Dessa forma, pelo contexto de produção do conhecimento, quando perguntamos quem faz ciência, a resposta será o cientista porque estamos perguntando pelo sujeito e não pelo objeto. No contexto de validação do conhecimento é que o foco estará no objeto. Portanto, quem é o cientista?

Aqui entramos na noção de habitus de Bourdieu. Ela é definida de diversas maneiras. O habitus tem duas dimensões: primeiro ele é a interiorização da exterioridade, ou seja, a interiorização das estruturas do mundo social (Bourdieu,1987). O cientista interioriza tudo o que lhe ensinaram, no ambiente que lhe ensinaram e de quem lhe ensinou; em um segundo momento, o habitus é uma exteriorização do que foi interiorizado, que surgirá novamente transformado ou modificado.

Podemos referir aqui, também, a noção de habitus que se aplica a cada indivíduo em particular e a noção de habitus aplicada a uma classe social (proletário, burguês, etc.). No caso aqui, o cientista pode representar um indivíduo como uma classe social. Seja como for, o habitus particular vai ser uma variante do habitus social ou coletivo. Ele vai exterioriza aquilo que ele tinha introjetado. São costumes, regras, métodos, hábitos, crenças, ideologias, valores, etc. O cientista exterioriza mediante o seu comportamento, pela sua forma de agir. Ele vai fazer ciência conforme lhe foi ensinado nos anos de sua formação. Esse comportamento, no entanto, é inconsciente na maioria das vezes. O sujeito não faz nenhuma reflexão, ele age automaticamente. Isso porque sua ação é produto de sua formação passada. É o que Bourdieu vai chamar de senso prático. O senso prático produz habitus e economiza a reflexão a respeito da ação.

O habitus foi definido de duas maneiras: (a) em primeiro lugar, a noção de habitus se aproxima de costume. Portanto, é aquela noção que torna previsível o comportamento do sujeito. Neste sentido, tende para o determinismo. Ora, se estruturas subjetivas são determinadas pelas estruturas exteriores, objetivas do mundo social, então, o comportamento se torna repetitivo, mecânico, automático, mais reprodutor do que produtor; (b) em segundo lugar, a noção de habitus envolve transformação, ou seja, mudança. Aqui, o habitus é um “produto dos condicionamentos que tende a reproduzir a lógica objetiva dos condicionamentos, mas fazendo-o sofrer uma transformação” (Jourdain; Naulin,2017). Aqui o sujeito sofre uma mudança causada pela sua reflexão sobre seu habitus.

Por fim, o habitus é adquirido pelo inconsciente social das pessoas, transformando ou mudando sua forma de fazer e pensar a realidade ao seu redor.

Seguindo adiante, apesar da tradição francesa ser anti-positivista, na história e na filosofia das ciências, Pierre Bourdieu sempre defendeu uma sociologia científica. Isso é importante se considerarmos que no contexto de produção do conhecimento científico sempre houve uma maior tendência de privilegiar a psicologia em detrimento a lógica. Popper reclama deste psicologismo que invade todo o pensamento argumentativo.

É claro que nunca deixou de ser ironizado por seus adversários como sendo um positivista. Mas, querendo ou não sempre, desde a sua origem, a sociologia e os sociólogos nunca conseguiram livrar-se do positivismo. Quem não bebe na bica do positivismo, não consegue apresentar uma sociologia ou ciência que seja reconhecida, ou até produtiva. Todos os pais fundadores da sociologia – E. Durkheim, K. Marx e Max Weber – tem uma dívida para com o positivismo na construção de suas concepções sociológicas.

Segundo Bourdieu, a ciência é produzida dentro de um campo social específico, se constitui em um modo de conhecimento objetivo da realidade e possui um estatuto epistemológico particular.

Como um campo social específico, a ciência é um domínio de atividade que possui suas próprias leis e os seus códigos internos. Aquele que entra nesse meio (o da ciência, por exemplo) deve dominar os códigos e as regras internas.

Sendo assim, a ciência é uma atividade humana entre tantas atividades humanas; um mundo entre tantos mundos humanos; um campo social entre tantos campos sociais.

Como um modo de conhecimento objetivo da realidade, a objetividade da ciência é uma produção social coletiva. O conhecimento validado é aquele que diz respeito a relação sujeito-objeto, sujeito-sujeito e entre os sujeitos-objeto.

O problema clássico na epistemologia das ciências sociais, aparece aqui: como é possível um conhecimento objetivo do mundo societário se os pontos de vista dos cientistas sociais são condicionados por seu pertencimento a esse mundo? 

Por fim, no estatuto epistemológico da ciência pergunta-se: Pode a sociologia se livrar da ideia de um conhecimento objetivo, ou seja, de objetividade?

2. Método

Há uma dialética inerente ao método, que pode ser percebida. A particularidade ou singularidade interioriza a universalidade; e, em segundo momento, a particularidade ou singularidade exterioriza a universalidade modificada, ou seja, transformada. Essa transformação é expressa pela objetividade.

Nesse movimento descrito acima, a particularidade e a universalidade são captadas pelo pensamento relacional, em Bourdieu. O pensamento relacional é uma nova forma de interpretar o mundo, obtida por meio de uma ruptura com a percepção comum (senso-comum).

Quando Bourdieu declara que “A sociologia é uma ciência como as outras que esbarra somente em uma dificuldade particular de ser uma ciência como as outras”, o que ele quer significar com a expressão “como as outras”? Aqui se trata de mais uma aproximação do pensamento positivista. Se trata da velha tese da unidade do método, ou seja, um método universal para todas as disciplinas que queiram se dizer ciência. Mas, querer que as ciências sociais ou históricas se orientem pelas ciências naturais e exatas é, segundo Bourdieu, uma representação falsa de tal epistemologia.

A questão de saber se a sociologia é ou não é uma ciência, e se é uma ciência como as outras, deve ser substituída, no entender de Bourdieu.

Assim, a característica mais fundamental do campo da ciência é o fato de que o jogo é duplo: de um lado, esse jogo é intelectual, por outro, esse jogo é político. O agente ou o cientista é tanto intelectual como político. Esse é o mecanismo. Politicamente, a luta pela autoridade científica, em que o cientista espera o reconhecimento de seus produtos. Mas, o reconhecimento através de seus colegas competidores, é o menos provável de acontecer. Portanto, esse é o mecanismo fundamental do campo científico, já referido por T. Kuhn (1977), mas antes em Bachelard.

Para Kuhn, a sociologia não é científica porque não possui um paradigma. Bourdieu critica Kuhn por este considerar a ciência como madura somente quando de posse de um paradigma. Assim, para Bourdieu, a teoria de Kuhn é funcionalista e uma contrapartida do positivismo. Contudo, Bourdieu apoia Kuhn quando este se opõe ao logicismo do positivismo e de Popper. No entanto, Bourdieu gostaria que Kuhn colocasse mais ênfase aos fatores irracionais e que fosse menos internalista.

Bourdieu faz referência ainda a G. Bachelard quanto ao modo de pensar a sociologia como ciência: o vetor epistemológico[…]vai do racional ao real[…], o que define a tentativa de ir além do positivismo.

Bourdieu defende Popper no debate sobre a indutividade dos positivistas lógicos. Ele afina com Popper em dar primazia a teoria sobre os dados.

Mas, a dívida de Bourdieu com Popper se estende ao delineamento do próprio método científico, ou seja, o método hipotético-dedutivo.

Isso tudo está dentro de um contexto de validação, mas que é validado pela coletividade através do trabalho de comunicação (contexto de produção do conhecimento). É claro aqui a superação do contexto de produção do conhecimento sobre o contexto de validação.

3. Objetividade

Para o positivismo, a objetividade encontra-se sempre no contexto de validação do conhecimento. A ciência é objetivada pela validação do conhecimento. E, por outro lado, o objeto de estudo faz parte desse mesmo contexto de validação do conhecimento. Portanto, há duas noções importantes aqui: objetividade e objeto de estudo.

Precisamos olhar a objetividade fora do contexto de validação. Podemos olhar a objetividade no contexto de produção do conhecimento. No contexto da validação, objetividade é “o meio pelo qual obtemos um conhecimento preciso, claro, conceptual, não influenciado por preconceitos subjetivos” (PALMER,1969). Sociologicamente, diríamos que objetividade é ausência de tendenciosidade quando se faz ou interpreta observações. Em segundo lugar, objetividade é uma situação na qual nossas representações do mundo correspondem realmente às condições reais. Assim os dados que coletamos, as palavras que escrevemos e dizemos, os quadros que pintamos são objetivos neste sentido, ou seja, no sentido de que são representações da realidade. Isso significa que podemos descrever o mundo sem a influência dos nossos modos de pensar (conceitualizar) e viver. Portanto, a objetividade reside no método. A relação com o positivismo e consequentemente com o contexto de validação é inevitável.

“As ciências que se dedicam a explicar e compreender as relações existentes entre seres sociais lidam constantemente com questões que passam pelo entendimento da abordagem ao objeto, da relação entre sujeito e objeto e do método que se lança mão para produzir conhecimento científico nas ciências sociais. Normalmente, a indagação e crítica nas ciências sociais desses três elementos e de como eles devem ou podem se relacionar tem como referência o positivismo. Ou seja, ainda é frequente ao se fazer ponderações sobre sujeito, objeto e método, ter como parâmetro para o diálogo, a influência marcante do positivismo nas ciências sociais.” (CASTRO,2015).

Sendo assim, pode a sociologia livrar-se dessa ideia de objetividade? O que significa conhecimento objetivo da realidade? Para Bourdieu, a sociologia é um empreendimento que objetiva assimilar, ampliar e produzir a realidade como uma produção social coletiva.

Para que haja a validação do conhecimento é necessário o consenso sobre a validade científica de um enunciado. Segundo Bourdieu, esse consenso resulta de uma dinâmica intersubjetiva de circulação crítica.

Gaston Bachelard está ligado, na obra de Bourdieu, sobretudo a questão do método e da cientificidade da sociologia.

Segundo Bachelard (1938), “qualquer doutrina da objetividade acaba sempre por submeter o conhecimento do objeto ao controle de outrem”.

Ainda segundo Bachelard (2006), o objeto da ciência tem por característica essencial o fato de que ele não é dado, mas deve ser construído pelo pesquisador em um processo de sistematização do conhecimento.

A análise do contexto de validação não é abandonada por Bourdieu. O objeto de pesquisa é construído como um sistema de relações. Portanto, a pesquisa científica é relacional. Trata-se de perceber as particularidades/singularidades do objeto, apontando aí as características invariantes, atingindo aquilo que há mais de geral/universal no objeto e, por fim, estabelecer leis gerais.

Essa construção rompe com o senso-comum, colocando em dúvida as pré-noções interiorizadas pelo cientista social. Somente assim, compreende-se o objeto naquilo que ele tem de mais real. Por fim, fica claro que, antes mesmo da análise do objeto, precisa-se de uma reflexão sobre quem é o cientista e do meio científico (comunidade científica) enquanto cientistas sociais que são. O contexto de validação não é independente do contexto de produção do conhecimento.

4. Aplicação do Método: os usos da tecnologia

A tecnologia como aplicação do método, sempre se envolverá em um dilema ético. Por um lado, o uso da tecnologia em benefício não só de si próprio, mas também de outrem; por outro lado, o uso da tecnologia para destruir a si e ao próximo. As guerras são assim: se produz tecnologia em tempos de guerra para a destruição do próximo. Em tempos de paz, se produz ou se usufrui dessa tecnologia para a educação e para a saúde, ou seja, generalizando, para se viver melhor. A questão é que as guerras sempre impulsionaram a produção de tecnologias, que depois são usadas em tempos de paz entre as nações.

Bourdieu não tem referência alguma a respeito da tecnologia. Em “Vocabulário Bourdieu” (2017) seus autores não fazem referência alguma do verbete “Tecnologia” em Bourdieu. A dificuldade de Bourdieu, foi a dificuldade de todo e qualquer racionalista: explicar a mudança social. O conceito de tecnologia e de inovação aparecem com este objetivo: explicar a mudança social, ou seja, responder a questão: como ocorre a mudança social?

O conhecimento científico transformado no real é o que se entende por tecnologia. A tecnologia produz mais conhecimento científico quando transforma o real. O real transformado produz conhecimento científico, que por sua vez, produz tecnologia. Esse é o fazer ciência ou uso da tecnologia que nada mais é do que desejo de controle.

Foi a partir da Revolução Industrial que ciência e tecnologia aceleraram o desenvolvimento capitalista. A ideia de progresso ganhou destaque. O progresso é uma consequência da relação estabelecida entre ciência e tecnologia. Portanto, o conhecimento científico se “tecnologiciza”, ou seja, torna-se técnica e, consecutivamente a tecnologia se “cientificiza”, ou seja, se torna ciência. Ambas no seio do capitalismo tornam-se forças produtivas e passam a valorizar o capital.

Dito de outra maneira, não menos importante, a tecnologia interioriza a ciência ou conhecimento científico; e, depois, a tecnologia exterioriza o conhecimento científico modificado ou transformado.  O resultado dessa dialética é a inovação.

5.Inovação

O que é inovação? Inovação vai além do simples sentido econômico, e atinge a esfera cultural.

Poderíamos pensar que, o habitus (Bourdieu) interioriza a tecnologia e seus usos. E, simultaneamente, o habitus exterioriza a tecnologia. Nesses movimentos dialéticos, o resultado é a inovação.

A ideia de inovação voltada exclusivamente para atender a competitividade do mercado tem perdido importância frente a uma proposta socialmente reconhecida que visa e gera mudança social, a inovação social (ANDRÉ; ABREU, 2006, p. 123; CAJAIBA-SANTANA, 2013). Há certas ideias que nascem dentro do período de crise do capitalismo. Uma dessas ideias é a de inovação. Inicialmente voltada para atender a competitividade do mercado, foi tendo seu objetivo alterado pelo conceito de inovação social.

Por inovação social, entende-se que é um modo de criar novas e mais efetivas respostas aos desafios enfrentados pelo mundo hoje. Inovação social é uma nova ideia ou uma ideia melhorada que, simultaneamente, atende as necessidades sociais e cria novas relações sociais. É um fenômeno capaz de elevar a capacidade de agir da sociedade (MURRAY et al., 2010).

A inovação social apesar de se diferenciar da inovação competitiva das empresas, ainda se encaixa ao sentido econômico de inovação. A inovação destruidora a que refere Luc Ferry (2014) extrapola o sentido econômico de inovação e atinge a inovação naquilo que se estende a todos os setores da vida moderna. Diríamos, a todas as formas de vida e de pensar. Portanto, completa “a inovação pela inovação” típica do capitalismo.

A inovação pela inovação, típica do capitalismo é o princípio fundamental deste, e se estende por todos setores da vida moderna como bem aponta Luc Ferry (2014).

O exemplo de uma inovação destruidora seria o casamento gay. É uma inovação destruidora às visões morais e religiosas tradicionais. Esse mesmo tipo de destruição ocorre na ciência, no consumo, e nos modos de vida cotidianos. Outro exemplo, segundo Luc Ferry (2014), é a emancipação do “segundo sexo”. Na ciência, a adoção de atitudes científicas de rejeição às tradições, de desconfiança das autoridades, da busca de recursos como a observação, experimentação e instrumentos de medida, serviu como inovação destruidora de como vinha-se definindo ciência e fazendo ciência no passado.

Portanto, a inovação destruidora amplia o campo de atuação, alcançando setores de toda a vida, como a cultura, a ciência, o consumo, etc., mas mantém-se dentro da esfera capitalista. A inovação social assim como a inovação competitiva também fica na esfera capitalista.

Em conclusão, diríamos que há sim a possibilidade de se falar de inovação além das esferas limitantes e “destruidoras” do capitalismo. O capitalismo não consegue resolver diversos problemas que borbulham em seu seio. São problemas sociais que só se resolvem por meio de uma preocupação e práxis social.

Conclusão

O problema tratado aqui foi do status da sociologia como ciência. Através do pensamento sociológico de P. Bourdieu começamos com questões epistemológicas e metodológicas para mostrar a importância da validação e da produção do conhecimento na sociologia. Seguimos destacando a dialética implícita dentro de seu pensamento e passando para o plano prático relacionamos o que dito com as noções de tecnologia e inovação. Contudo, essas noções vão além do pensamento de Bourdieu.

Por fim, devemos alertar para o perigo de que a sociologia corre quando se apresenta como justificadora do que está estabelecido por uma ordem. Neste sentido, a sociologia abre mão de ser portadora de um senso crítico à ordem estabelecida, e fica sendo apenas reprodutora de um sistema opressor. Veja-se, por exemplo na concepção de inovação, que durante muito tempo foi vista como competitividade. Hoje, graças a uma concepção abrangente, falamos de inovação social. Contudo, essa noção de inovação social abdica de um senso crítico maior, ficando apenas na procura pragmática de soluções de problemas. O senso crítico possibilita a assimilação, a produção e ampliação do alcance da perspectiva dos problemas, sem, contudo, orientá-los para possíveis soluções provisórias e não definitivas.  

REFERÊNCIAS

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