Pragmatismo Axiológico de Larry Laudan

Por João Batista C. Sieczkowski

5.1 Introdução

 Neste momento é importante entender como a filosofia da ciência está estabelecida hoje. Procuraremos dividir nosso trabalho nas seguintes etapas: (i) responder o que é ciência para Laudan; (ii) A relação entre história da ciência e filosofia da ciência; (iii) O progresso da ciência e a racionalidade científica; (iv) Há uma metafísica na filosofia da ciência de Laudan? Introdutoriamente é importante saber a respeito das obras de L. Laudan. Em ordem cronológica temos: “Progress and its Problems” (1977); “Science and Hypothesis. Historical Essays on Scientific Methodology” (1981); “Science and Values. The Aims of Science and Their Role in Scientific Debate” (1984); “Science and Relativism” (1990).

5.2 O que é ciência para Laudan?

            Laudan aposta na superioridade da ciência enquanto atividade humana sobre outras atividades humanas como arte, religião, mito, etc., porque para ele a ciência se define como uma resolução de problemas, mas o caráter da resolução de problemas não é aquele que nos dá uma garantia que o problema está resolvido completamente ou definitivamente. A resolução de problemas tem um caráter aproximatório, porque não há exatidão no resultado experimental. Outro aspecto muito importante da resolução de problemas é que verdade e a falsidade de um problema são irrelevantes, porque são irrelevantes as questões acerca da verdade e da probabilidade. Portanto, soluções de problemas não permanecem. A ciência é o aumento, através do tempo, dos requisitos que exige para que algo seja considerado como solução de um problema. 

A superioridade da ciência é melhor entendida como sendo os problemas que Laudan está se referindo não são problemas de rotina. Isto é, todos nós temos uma rotina em casa, no nosso trabalho, no nosso dia-a-dia, enfim. Resolvemos problemas de rotina. Mas, Laudan não se refere a esse tipo de problemas que a ciência tenta solucionar. A ciência tenta solucionar megaproblemas. Queremos apontar que a ciência tenta solucionar problemas que dizem respeito à sobrevivência da espécie humana (filogenia) e problemas que dizem respeito à existência do indivíduo (ontogenia). Assim, por exemplo, problemas como os da ecologia que tem que haver com a preservação do meio e da espécie humana; epidemias; etc. Portanto, solucionar problemas é a unidade mínima significativa da ciência enquanto atividade humana.

A ciência é uma atividade humana que objetiva solucionar problemas da humanidade e é nisso que reside a sua superioridade sobre as outras atividades humanas de forma geral. De forma específica, precisamos justificar a ciência pela sua racionalidade e pelo seu progresso, porque outras atividades humanas como arte, religião, etc. não podem e não tem interesse em definir esses aspectos específicos, porque não fazem parte delas “melhorar a condição humana” neste sentido. Haveria outro sentido em que arte, religião, etc. pudessem “melhorar a condição humana”? Talvez, mas não como a maneira da ciência.

 A resolução de problemas aponta para dois tipos de problemas: problemas empíricos e os problemas conceituais. A teoria será o resultado final do tratamento desses problemas. Os problemas constituem a ciência e as teorias as respostas. Os problemas empíricos são problemas de primeira ordem, de primeiro nível, isto é, são perguntas substantivas acerca dos objetivos que constituem o domínio de qualquer ciência dada. Tratamos os problemas empíricos como se fossem problemas acerca do mundo. Essa expressão “como se fossem” significa que aquilo que coloca problemas empíricos são contrafácticos, isto é, não necessita descrever com precisão um estado de coisas real: tudo que se requer é que alguém pense que é um estado de coisas real.

 Há, por outro lado, muitos fatos do mundo que não suscitam problemas empíricos, porque são desconhecidos. Os fatos são fatos inclusive se nós não o reconhecemos. O único fato que pode ser tido como problema são os fatos conhecidos, mas os fatos conhecidos não se constituem problemas empíricos necessariamente. Por último, problemas empíricos podem deixar de ser problemas em uma época posterior, por razões racionais. Os fatos nunca deixarão de ser fatos por essa razão. Pois bem, há três tipos de problemas empíricos que avaliam uma teoria: (i) problemas não resolvidos, são aqueles problemas empíricos que nunca foram resolvidos por nenhuma teoria. Não são problemas autênticos; (ii) problemas resolvidos, são aqueles problemas empíricos que foram resolvidos satisfatoriamente por uma teoria; (iii) problemas anômalos, são aqueles problemas empíricos que não tem sido resolvido por uma teoria concreta, mas tem sido resolvido por uma ou mais teorias alternativas. Enfim diz Laudan, …o progresso científico é a transformação de problemas empíricos anômalos e não resolvidos em problemas resolvidos (Laudan,46).

Quanto aos problemas conceituais, Laudan alerta para o fato de que seria um erro pensar que o progresso e a racionalidade científica consistem somente na resolução de problemas empíricos. Entendam-se os problemas conceituais, preliminarmente, como sendo definido por exclusão: os problemas conceituais indicam que não são empíricos. Mas, qual é a sua função na avaliação das teorias? Em primeiro lugar, é um problema apresentado por alguma teoria e não tem existência independente das teorias que a mostram (vejam Popper e a tese dos três mundos, especialmente a de mundo 3). Os problemas conceituais são perguntas de uma ordem superior acerca da consistência das estruturas conceituais (por exemplo, teorias) que tem sido elaborada para responder a perguntas de primeira ordem. Temos dois tipos de problemas conceituais: internos e externos. Os problemas conceituais internos são aqueles em que uma teoria mostra certas inconsistências internas, ou quando suas categorias básicas de análise são vagas e estão pouco claras. Os problemas conceituais externos são aqueles em que uma teoria 1 está em conflito com outra teoria 2 ou doutrina que os partidários da primeira creem que estão racionalmente bem fundadas. Os problemas conceituais internos surgem com o descobrimento de que uma teoria é logicamente inconsistente e autocontraditória. Em segundo lugar, problemas conceituais internos surgem, desta feita, de uma ambiguidade ou circularidade conceitual no seio da teoria. Os problemas conceituais externos surgem quando uma teoria 1 está em conflito com outra teoria 2 ou doutrina que os partidários da teoria 1 creem que estão racionalmente bem fundadas. É a tensão que constitui um problema conceitual. O que significa os termos tensão e conflito? A tensão é definida como inconsistência ou incompatibilidade lógica. Diz Laudan, quando uma teoria é logicamente inconsistente com outra teoria aceitada, nos encontramos ante um claro exemplo de problema conceitual (Laudan, 84). Em segundo lugar, gerar problemas conceituais externos se produz quando surge uma teoria que tenderia a reforçar a outra, mas fracassa nela e é meramente compatível com ela. O que está implicado nisso é a estrutura interdisciplinar da ciência.

Em resumo, os supostos principais de um modelo tal são simples: (1) o problema – empírico ou conceitual – resolvido é a unidade básica do progresso científico; e (2) o objetivo da ciência é ampliar ao máximo a esfera de problemas empíricos resolvidos, ao tempo que reduz ao mínimo o âmbito de problemas anômalos e conceituais (Laudan,100).     

5.2 A relação entre história da ciência e filosofia da ciência para Laudan.

Para Kuhn, a tentativa de justificar uma reconstrução racional particular parece circular. Um modelo particular de progresso científico está baseado na sua capacidade de trazer à luz a racionalidade implícita na história da ciência. Assim, a filosofia da ciência enquanto reconstrução racional do progresso científico, é justificada por um apelo à própria filosofia da ciência enquanto compromissos metodológicos do próprio historiador da ciência. Larry Laudan quer evitar que o círculo se feche.

Segundo Laudan, seleciona-se um conjunto de episódios históricos, juízos aceites como confiantes. Esses juízos dão conta de nossas “intuições preferidas” acerca da racionalidade científica. Exemplo de “intuições preferidas” é (i) em 1800, era racional aceitar a mecânica newtoniana  e rejeitar a mecânica aristotélica; (ii) em 1890, era racional rejeitar a IDEIA de que o calor é um fluido; (iii) era racional em 1925, aceitar a teoria da relatividade geral. As “intuições preferidas” são casos-padrão, isto é, servem de comparação para todos os outros juízos da racionalidade científica.

O procedimento justificativo de Laudan não é circular, mas é espiral. Assim filosofia da ciência e a história da ciência são interdependentes. A história da ciência é a fonte das nossas intuições acerca do crescimento científico e é uma reconstrução racional baseada no ideal tido em conta na filosofia da ciência. A filosofia da ciência é um meta-comentário que promove o ideal racional incorporado nessas intuições. O que Laudan procura aqui é um meio termo entre o logicismo (Positivismo Lógico e Falseacionismo) e o relativismo (Kuhn e Feyerabend). O logicismo torna a história da ciência irrelevante para a filosofia da ciência. O relativismo reduz a filosofia da ciência a uma descrição da prática científica, passada e presente. Para Laudan, a filosofia da ciência deve conter tanto um elemento descritivo como um elemento normativo. É descritiva quanto ao procedimento dos casos-padrão selecionados e, normativa em relação a outros episódios históricos. O modelo de Laudan depende da escolha de casos padrão. As crenças acerca de casos-padrão podem mudar. As normas da racionalidade estão sujeitas ao desenvolvimento histórico. Para Laudan, o modelo de progresso científico é sensível à evolução dos padrões de racionalidade. Esse modelo de progresso científico representa a ciência como uma atividade humana de resolução de problemas.

5.3 O progresso da ciência.

O que fica em evidência até aqui é a posição pragmatista de Laudan. Agora, esse aspecto se acentua mais ainda com a noção de progresso da ciência. O problema do progresso da ciência é apontar qual teoria que deve ser preferida. Qual é a melhor ou preferida teoria: T1 a mais antiga ou T2 a mais nova? Segundo Laudan, a melhor teoria, aquela que será a preferida, é a teoria que resolver mais problemas emergentes, que poderiam causa mais riscos para a sobrevivência humana da espécie e do indivíduo, no presente momento. Portanto, pode ser uma teoria antiga como uma teoria nova que poderá ser a escolhida. Dessa forma, o progresso poderá ser alcançado pelos seguintes caminhos: (i) quando as teorias sucessivas mostram uma eficácia crescente na resolução de problemas; (ii) quando há um incremento do número de problemas empíricos resolvidos; (iii) quando há a solução de uma anomalia. Diz Laudan, sempre que um problema empírico p, foi resolvido por qualquer teoria, então p, doravante, constitui uma anomalia para todas as teorias no domínio relevante, que também não resolvem p.

Surge, então, a questão: Como uma anomalia é removida? (a) pela revisão de suas bases empíricas; (b) acomodar a anomalia recorrendo a uma hipótese auxiliar; (c) proceder a alterações significativas na teoria relevante. (iv) quando há uma restauração da harmonia conceitual entre teorias supostamente em conflito. A racionalidade científica é definida como ter boas razões para o cientista fazer ou crer na ciência.

5.4 Tradições de Investigação.

Toda disciplina intelectual científica ou não-científica possui uma tradição de investigação. Exemplos de tradições de investigação seria o darwinismo, a teoria quântica, a teoria eletromagnética da luz, voluntarismo, pré-determinismo em teologia, Condutismo e freudismo em psicologia, utilitarismo e intuicionismo em ética, marxismo e capitalismo em economia, mecanismo e vitalismo em fisiologia, etc. As tradições de investigação são um conjunto de supostos gerais acerca das entidades e processos de um âmbito de estudo, e acerca de métodos apropriados que devem ser utilizados para investigar os problemas e construir as teorias desse domínio (Laudan,116).

As tradições de investigação, de acordo com essa definição, implicam em diretrizes ou orientações que são metodológicas e ontológicas ou metafísicas. O cientista deve procurar aquilo que é proibido pelas metodologias e ontologias (metafísicas) dominantes. Um exemplo seria o Condutismo. Os métodos de procedimento de um psicólogo condutista são os que se chama normalmente operacionismo. As entidades metafísicas legítimas são traços físicos e fisiológicos direta e publicamente observáveis.  Aqui há uma redução do empírico para a ontologia (metafísica), porque poderíamos perguntar quais são essas entidades metafísicas legítimas que são reduzidas. O que é proibido pelo Condutismo é noções como impulsos subconscientes que são freudianas. Neste sentido, o cientista está repudiando a tradição de pesquisa dominante, procurando o que há de proibida nela.

Resumindo o que foi dito até aqui, temos visto que as tradições de investigação podem justificar muitas das afirmações que fazem as teorias; podem servir para declarar inadmissíveis certas teorias, porque são incompatíveis com a tradição de investigação; podem influir no reconhecimento e a avaliação dos problemas empíricos e conceituais de suas teorias componentes, e podem proporcionar diretrizes heurísticas para a criação ou modificação de teorias específicas. (Laudan,130).

5.5 O Critério de Demarcação entre ciência e não-ciência.

Há um critério de demarcação na filosofia da ciência de Larry Laudan? A perspectiva que Laudan sugere é que não há uma fundamental diferença de tipo entre a ciência e outras formas de indagação intelectual. Em outras palavras, não há uma diferença entre a ciência como atividade humana e as outras atividades, porque todas as atividades humanas pretendem dotar de significado o mundo e a nossa experiência.

 Mas, e aí começa as diferenças, o que nós denominamos ciências são mais progressivas que as não-ciências. A pergunta por um critério de demarcação, há de se reconhecer, tem sido um fracasso completo. Não há nenhuma filosofia da ciência que possa estabelecer um critério de demarcação. Em vez disso, segundo Laudan, deveríamos distinguir as pretensões de conhecimento bem contrastadas e confiáveis das fraudulentas. A resolução de problemas pretende realizar essa meta. Pretendemos distinguir as teorias com um alcance amplo e demonstrável na resolução de problemas, das teorias que não tem esta propriedade. Tudo indica, portanto, que Laudan não estabelece um critério de demarcação. A preocupação maior de Laudan é com a prática científica, já que ele considera o modelo explicativo da prática científica de Kuhn insuficiente.

5.6 Modelo hierárquico de justificação da prática científica.

Esse modelo segue o princípio de Leibniz (1646-1716) todo nível inferior se explica, ou melhor, se justifica pelo nível superior. Assim, assumindo uma forma piramidal temos na base Leis e teorias que são universais; o nível que justifica esse é o nível das regras metodológicas, ou seja, do método; e por último, o que justifica o nível das regras metodológicas é o nível axiológico, isto é, dos valores. Mas, qual é o nível que justifica o nível axiológico? E mesmo que justificasse, qual seria o nível seguinte que o justificaria? O regresso infinito é inevitável. Isso pode ter levado Laudan a abandonar o modelo hierárquico de justificação da prática científica.

5.7 Modelo reticular de justificação da prática científica.

A opção é por um modelo mais flexível, ou seja, um modelo mais dialético. Dialético porque articula reciprocamente todos os elementos envolvidos no modelo anterior.

MODELO RETICULAR

Ora, enquanto métodos servem para justificar leis e teorias, essas leis e teorias servem para restringir a atuação dos métodos. Por sua vez os métodos científicos mostram qual é a axiologia que pode ser elaborada e a axiologia justifica por meio de metas e fins os métodos científicos. Por fim, leis e teorias de um lado e a axiologia com suas metas e fins, por outro, devem harmonizar-se mutuamente. Mas, como ocorre essa harmonização na prática? A história da ciência relata casos em que teorias científicas são colocadas em prática independentemente de suas consequências. Por exemplo, a fusão do Urânio chegou-se na bomba atômica, mas quais eram os valores que motivavam a comunidade científica para aceitar a construção de uma bomba mortífera? Direito à vida? Respeito? Honestidade intelectual? Mesmo que a comunidade científica não soubesse as consequências da bomba, isto não justifica a sua prática pela simples curiosidade ou pelo dinheiro dos militares que a financiaram. O que falou mais alto foi a ambição e o reconhecimento próprio, ou seja, egoísmo.

É importante notarmos que o problema da filosofia da ciência não é um problema de catedráticos de universidades. As suas consequências são práticas e as práticas da comunidade científica desconsideram a vida humana. O problema da filosofia da ciência agora, é um dos problemas éticos e não mais um problema lógico, ou talvez, somente lógico.

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