Algumas considerações sobre a confiança e verdade

João Batista C. Sieczkowski*[1]

O problema abordado aqui parece simples pois pode ser sintetizado em uma única pergunta: Como os outros sabem que somos confiáveis? A ideia inicial defendida aqui é a de que a o problema da confiabilidade pode ser compreendida tanto epistemologicamente, como eticamente. Do ponto de vista epistemológico, a confiança é questionada pelos céticos por confiarmos em crenças que não podem ser garantidas em sua veracidade. Para o cético, nossas faculdades cognitivas não conseguem estabelecer essa garantia da verdade. Contudo, a posição cética esbarra na dificuldade de que o próprio cético se utiliza dessas faculdades cognitivas para criticar. Essa dificuldade caracteriza uma circularidade. “Mas qualquer uma destas tentativas de garantir a confiança em nossas faculdades e refutar o ceticismo faz uso das faculdades que pretende defender, ou atacar (no caso do ceticismo). Deste modo, nenhuma oferece garantias não circulares. Ainda assim, a dúvida cética de se nossas faculdades e métodos intelectuais são fiáveis é uma questão relevante em Epistemologia, e não pode ser ignorada.”[i][2] Uma outra questão relacionada será a vulnerabilidade de nossas crenças. Não podendo refutar o cético, ficamos vulneráveis em acreditar. Temos aqui confiabilidade e vulnerabilidade frente-à-frente. O quanto nossas faculdades cognitivas são confiáveis na formação de uma crença? E, o quanto nossas faculdades cognitivas são vulneráveis? É a reflexão que poderá mostrar se uma crença é confiável ou vulnerável. Se suportar a reflexão, ou seja, se for imune a crítica, ela será confiável, e se contradizer-se na reflexão, será vulnerável. Mesmo que nós mais erramos do que acertamos, ou seja, que não sejamos tão imunes à crítica, não há um perigo de estar errado massivamente. Quanto mais intensa e profunda a reflexão, quanto mais imune a crítica, mais confiável será. O aspecto ético aqui é: o indivíduo tem que ter honestidade intelectual, ou seja, estar sempre disposto a expor-se a crítica e de abandonar sua crença, se for vulnerável, se não conseguir imunizar-se contra a crítica.

De um ponto de vista ético, a confiança é própria de pessoas altruístas, e não de pessoas egoístas. Sendo assim, em primeiro lugar, é preciso dizer que a questão do significado de confiança poderia ser olhada como confiabilidade. A confiabilidade é a capacidade de confiar em alguém, por exemplo, em uma pessoa, ou seja, um cientista, ou em algo ou objeto de estudo, ou seja, a ciência, em uma informação, etc. A confiança é um sentimento de segurança ou firme convicção em relação a uma pessoa ou algo. Assim, a confiabilidade se refere ao que poderemos conquistar, enquanto que a confiança se refere a algo ou pessoa que já pode ser oferecido(a). Ainda sobre a definição de confiança, McLeod (2011) afirma que confiar pressupõe vulnerabilidade em relação à pessoa confiada. Quem confia pode ser traído. Isso pode ser correto até certo ponto. De certa forma, aquele que confia se expõem para algo ou pessoa em quem confia, mas poderia haver confiança sem haver exposição completa para aquilo (objeto) ou aquela (pessoa)? Não, não haveria como falar de confiança. Portanto, sem a vulnerabilidade de quem confia, não haverá confiança. Não há como confiar desconfiando. Um outro ponto, é o de que a confiança envolve riscos e que quando se racionaliza o ato de confiar, se perde a confiança. Há riscos quando se confia e isso mostra o quanto as pessoas ou coisas se tornam vulneráveis. Expor-se por completo envolve correr riscos. A tentativa de eliminar os riscos enfraquece a confiança. A racionalização da confiança significa a perda dessa confiança. Perde-se a capacidade de confiar (confiabilidade) ao racionalizar. E o ceticismo torna-se inevitável. Em Becker (1996), é apontado um critério importante para a confiança que é o seguinte: o confiante pode aceitar algum nível de risco ou vulnerabilidade. Ora, impor restrições de comportamento a quem confiamos ou a algo que confiamos, é confiar parcialmente. Assumir plenamente os riscos, ou seja, as consequências de confiar é o que eticamente chamaríamos de atitude altruísta. Impor critérios é racionalizar e racionalizar é perder a confiança, ou mais ainda, a confiabilidade. Os epistemólogos contemporâneos se limitam a fazer as suas racionalizações artificiais e postiças, descuidando-se dos aspectos sociais (políticos e econômicos) em suas abordagens. Aqui começa um outro ponto: a confiança social. Na sociedade, confiar em quem? Instituições religiosas (Igreja) ou laicas (Estado)? Em Ideologias de esquerda ou de direita? Nos Partidos políticos liberais ou socialistas? Como vimos, confiança é uma atitude altruísta, ou seja, uma atitude ética. É possível aplica-la na realidade? A confiança é uma atitude realista. Portanto, não é nem otimista e nem pessimista. O realismo da confiança é definido como admitir que certas coisas ou pessoas, uma vez que quebraram a confiança, não podem ser dignas de confiança. Neste sentido, é possível que instituições subordinadas a um sistema capitalista neoliberal, não sejam mais dignas de confiança. A questão, pois, seria outra: como reconstruir essas instituições? Como torna-las dignas de crédito (confiança)? A reconstrução das instituições pode se fazer eticamente, antes de tudo. Digo antes de tudo porque qualquer outra tentativa de reconstrução incidirá em fracasso, se o objetivo não for ético. E do ponto de vista ético, as justificativas de ações (do agir) incluem elementos que fogem ou escapam a qualquer análise racional ou analítica. É o caso de justificativas que envolvem a confiança social. Justificar ações éticas que são deontológicas. Essas ações envolvem sempre a intenção do agente social. E a intenção do agente social diz respeito a sua própria consciência, ou seja, há aqui uma interiorização. Ela irá se exteriorizar ou se materializar em uma ação e, por sua vez, uma vez materializada a ação do agente social, ela modificará a sua intenção futura.

Chego ao ponto de vista sociológico. A relação aqui é com a questão da pós-verdade. O que é pós-verdade? Segundo Higgins (2016), em artigo publicado na Nature, diz que a pós-verdade refere-se a mentiras sendo rotina em toda a sociedade, ou seja, a mentira universalizada torna-se uma verdade e um problema ético. A intenção de uma Fake News é tornar uma mentira, verdadeira, e também ao contrário, tornar uma verdade, mentira. Ora, como isso significa que mentir não é um crime, portanto, não é plausível a condenação de quem conta ou compartilha. Esse é o problema ético, como acreditar em instituições, classes sociais, indivíduos, etc., que assim procedem?

Mas, além disso, quando se trata de pós-verdade, há autores que a colocam em um plano de relativismo epistêmico, no qual a visão do que é verdade pode variar dependendo do contexto. Higgins (2016) explica que um relativista extremo pode sustentar que a verdade varia de pessoa para pessoa, uma posição que não deixa muito espaço para o debate. Contudo, posições mais racionais devem envolver pelo menos um mínimo de relativismo https://revistas.ufrj.br/index.php/rca/article/view/16764/1122. Esse seria o problema epistemológico. No caso do problema epistemológico, deixamos de fazer uma reflexão mais crítica e profunda (intensa) sobre as informações que recebemos e lemos, tornando-nos assim vulneráveis e pouco confiáveis. Depositamos toda nossa confiança em um relativismo ou ceticismo de ideias e crenças. O relativismo só não relativiza a sua própria verdade, e com isso torna-nos vulneráveis e pouco confiáveis.

Referências

https://1library.org/article/confian%C3%A7a-cren%C3%A7a-voluntariedade-o-conceito-confian%C3%A7a-epistemologia-testemunho.1y99ejdy

https://conceito.de/confianca

https://1library.org/article/confian%C3%A7a-em-nossas-pr%C3%B3prias-faculdades-intelectuais.1y99ejdy


[1] Licenciado e Bacharel em Filosofia (UFRGS), Mestre e Doutor em Filosofia (PUCRS), Bacharel em Teologia (ULBRA) Especialização em Aconselhamento Pastoral (UMESP)

 


[i]https://1library.org/article/confian%C3%A7a-em-nossas-pr%C3%B3prias-faculdades-intelectuais.1y99ejdy

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