por João Batista C. Sieczkowski
A filosofia é admirável pelas inúmeras perguntas que faz e pelas inúmeras vezes que nenhuma resposta é alcançada. Perguntar pela arte e sua relação com a política não é diferente, mas temos aí inúmeras orientações que podem ser alcançadas. Afinal, qual é a relação entre arte e política? A arte em si mesma não tem significado algum. É abstrata e sem utilidade. A arte para significar algo tem que estar ligada à política. Foi o que Marx pensou. Neste sentido, vamos abordar neste texto os seguintes tópicos: (a) Produção da/na arte; (b) consumo da arte; (c) distribuição da arte; (d) circulação da arte. O ponto de partida para entender essa relação é a produção material. Indivíduos produzem em sociedade. A arte é isso: indivíduos produzindo em sociedade. O artista não é um indivíduo singular e isolado. Porém, na sociedade burguesa, o indivíduo que é como meio para seus fins privados, mas é também confrontado com o social em suas diversas formas. Isso porque o indivíduo isolado é também um indivíduo de relações sociais. Aqui o ser humano é um animal político. É um animal que só pode isolar-se em sociedade. A produção artística não é algo que possa se fazer fora da sociedade. É como querer desenvolver a linguagem sem indivíduos vivendo juntos. O artista faz parte da produção de indivíduos sociais e a arte é um produto social de uma época, ou seja, um modo de produção específico, fruto da divisão do trabalho. O processo histórico do desenvolvimento do capitalismo, visto internamente ou externamente, tem distintas fases ou modos de produção. Em cada uma dessas fases a arte e o artista mudam o modo de produzir ou fazer a arte. Contudo, nessas fases, a arte e o artista, mantêm algo em comum. A produção da arte é uma abstração, mas nela fica fixado aquilo que é comum em todas as fases pela arte e pelo artista. Esse algo pode ser comum em algumas épocas ou em todas as épocas, em algumas fases ou em todas as fases. Por exemplo, quando falamos da arte antiga com o modo de produção escravagista, arte da idade média com o modo de produção feudal, a arte moderna e contemporânea com o modo de produção capitalista. Mas, o que é esse algo comum em algumas ou em todas as fases? É o sujeito e o objeto. No sujeito, a humanidade, e no objeto, a natureza. O homem e a natureza. Na arte, homem e natureza estão presentes. Porém, há a diferença que também está presente. Ora, a diferença é o que foi esquecido. O que foi esquecido na produção artística? Nenhuma produção artística é possível sem instrumento de produção, ou seja, uma ferramenta ou até a mão; nenhuma produção artística é possível sem trabalho acumulado; e nenhuma produção artística é possível sem o capital. Portanto, o instrumento de produção, o trabalho acumulado e o capital constituem a diferença existente ao longo de todas as fases, e que é muitas vezes esquecida. Tudo isso é o que deveria marcar qualquer história social da arte. Em resumo: “Toda produção é apropriação da natureza pelo indivíduo no interior de e mediada por uma determinada forma de sociedade” (Marx,2011). Assim, na produção, o artista se apropria da natureza em uma determinada forma de sociedade, ou seja, em um determinado momento histórico. (b) Segue-se a produção, o consumo. O consumo da arte é subjetivo e objetivo. O artista que tem capacidade de produzir a arte, também simultaneamente consome arte no momento de produzir. O que o artista consome são os meios de produção. Toda matéria-prima usada para produzir a arte faz parte dos meios de produção, e é pelo artista consumido. A matéria-prima é alterada no ato de produção da arte. Em suma, todo ato de produção da arte é um ato de consumo da arte em qualquer momento da história. Por outro lado, o aspecto negativo do consumo é que ele coisifica em um primeiro momento o sujeito, ou seja, o criador da arte; e, num segundo momento, aquele consome a arte. Em resumo, quem vende e quem compra. Coisificar significa alienar, ou seja, distanciar, separar, não pertencer a alguém. Da coisificação segue a desumanização. A arte não pertence nem a quem a produz e nem a quem a consome. Produção e consumo levam ou a uma nova produção ou a coisificação. Coisifica o sujeito e o objeto, pois aquele que compra também é objeto. A coisificação está na venda e compra. A alienação e a consequente desumanização estão na venda e compra. Mas, a arte produzida, que não é consumida, é arte apenas potencialmente. A arte sem produção e consumo não é arte, mas com produção e consumo leva da coisificação, à alienação e à desumanização, se vista apenas como venda e compra. A humanização da arte reside em melhorar a vida de todos, em suprir as necessidades existentes, no caso, o desejo de saber (consumir cultura), com o objetivo de criar um bem-estar social. Com a arte, o sujeito – artista (produtor) e consumidor, constroem sua identidade superando os obstáculos cotidianos. Da produção e consumo da arte vai-se a uma Nova Produção artística. O consumo cria o estímulo da produção, diz Marx (2011). Externamente, o consumo coloca o objeto material de consumo aos olhos do sujeito, e internamente, o consumo coloca idealmente o objeto material de consumo como imagem interior, necessidade, impulso e finalidade. Assim é com a produção e consumo da arte como atividade artística.
REFERÊNCIAS
MARX, Karl. Grundrisse. São Paulo: Boitempo; Rio de Janeiro: Ed. UFRJ,2011.