por João Batista C. Sieczkowski
O significado do problema mente-corpo.
Um estudo sobre a classificação e divisão das principais tendências do problema mente-corpo.
1. Principais definições
Os dois problemas fundamentais da epistemologia são os seguintes: (a) o problema do progresso e da racionalidade científica, que pode ser sintetizado a partir de uma interrogação assim colocada: quais são as condições de possibilidade para que a ciência progrida de maneira racional? (b) o problema corpo-mente, que se apresenta da seguinte maneira: quais são as condições de possibilidade que explicam as relações corpo-mente? Neste trabalho iremos aprofundar tão somente o segundo problema o problema corpo-mente.
1.1 Corpo
Para dizer algo de corpos como algo material temos de referir as suas características, pelo menos algumas: (a) estar situado no espaço e no tempo. Ora, algo que não estiver situado no espaço e no tempo não possui materialidade. Certamente estes corpos materiais não poderão ocupar o mesmo espaço simultaneamente, justamente porque possuem matéria. O corpo no espaço coloca limites a este espaço. É assim um espaço específico que estamos falando. Não estamos, neste momento, do espaço como um todo. Estamos falando do espaço limitado pelo corpo, ocupado pelo corpo. Sabemos muito bem que corpos estão no espaço – considerado este de maneira mais ampla – e que eles (os corpos) só podem ocupar o mesmo espaço quando consideramos o espaço neste sentido, isto é, mais amplo. Quando falamos do espaço ocupado por um determinado corpo, outro corpo não poderá ocupá-lo simultaneamente. Assim, corpos não podem estar situados no mesmo lugar. Um corpo só tomará o lugar do outro quando este primeiro deslocar-se do seu lugar de origem, isto é, entrar em movimento. Segundo Heráclito, tudo está em constante mudança, ou seja, em constante movimento. Mas, se Heráclito está certo os corpos nunca poderiam ser os mesmos por estarem em constante movimento. E, portanto, não poderíamos conhecer nada sobre os corpos. Ora, como podemos dizer que corpos ocupam lugar no espaço, logo não poderiam estar sempre em constante movimento ou ainda mudança. Temos que tomar cuidado aqui! Quando falamos de corpos em particular, a tese do movimento é plausível. Os corpos se modificam em suas acidentalidades, mas algo deve permanecer neles. Esse algo é o fato de ocuparem o espaço. E quanto ao tempo? O que podemos dizer? Todo corpo está ligado a um determinado tempo (época) em sentido restrito. O tempo em sentido amplo, é interno, isto é, próprio do sujeito. O espaço é um sentido externo ao sujeito. Mas, ainda não sabemos o que é ou como é esse sujeito de que falamos agora. Em conclusão, os corpos só são algo nas dimensões de espaço e tempo. Fora destas dimensões corpos são impossíveis de serem referidos. Se algo que permanece em relação ao movimento dos corpos são suas dimensões de espaço e tempo; (b) um corpo possui extensão. Quando falamos que um corpo é extenso estamos antes de tudo falando de sua materialidade. Sendo material este corpo, ou qualquer corpo, poderia ser mensurado pela sua extensão. Assim, as dimensões de comprimento, largura e profundidade são próprias de um corpo material, ou seja, físico. Tais dimensões são mensuradas em todo corpo e nos dão uma noção de espacialidade do corpo; (c) um corpo pode ser percebido pelos sentidos. Os corpos físicos podem ser vistos, escutados, tocados, degustados e cheirados. Contudo, temos que admitir que alguém é possuidor destes sentidos. Alguém, vê, escuta, cheira, toca e degusta. Quem é esse sujeito? O sujeito é possuidor de um corpo. Ele (o sujeito) percebe o seu corpo pelos sentidos. Mas, o que há no sujeito que permite ele perceber o seu corpo? (d) um corpo físico possui uma história. Aqui o tempo, ou seja, a memória, muito mais do que o tempo, entra como ponto de referência. Como todo corpo, na medida em que entra em movimento se modifica, logo, uma história deste corpo ou objeto físico pode ser descrita de múltiplas maneiras conforme o contexto, ou seja, o seu momento (espaço). Mas, a questão que aparece é: qual é o objeto físico – com sua história – que coisas, como por exemplo, um relâmpago se refere? A resposta parece ser que o relâmpago não se refere a nenhum objeto físico.
1.2 Mente
Podemos fazer uma caracterização da mente de maneira semelhante, que fizemos com a noção de corpo. Temos os seguintes pontos: (a) a mente não é algo que pode ser observada. Esta é a primeira característica da mente. Ser observado significa ser captado pelos sentidos, por ex., pela visão ou pelo tato. mas, e a mente em si mesma, pode ser vista ou pode ser tocada? A mente não pode ser vista, não pode ser tocada, ou mesmo ser escutada, etc. Apesar que primitivamente, achava-se que pudéssemos escutar as vozes dos deuses. Por outro lado, mesmo que a mente pudesse ser captada pelos sentidos, observada, não significaria necessariamente que fosse algo de mesma natureza que um corpo, pois toda a observação deveria ir além da própria captação dos sentidos. Deveria haver uma interiorização do objeto físico para uma possível de outro de mesma natureza. Pois aqui a questão é outra: o que é que distingue o corpo físico, o meu, de outros corpos? De que maneira se faz isso? (b) até onde sabemos, a mente não possui extensão. A mente não ocupa um lugar determinado no espaço e que pudesse ser mensurado. Não podemos falar do comprimento, da largura ou da profundidade da mente. Essas são dimensões que se aplicam a objetos físicos, a corpos. Agora, se pudéssemos falar de extensão, como extensão lógica, poderíamos, talvez, constatar uma aplicação àquilo que chamamos mente. A extensão lógica de um conceito é caracterizada pelo fato de ser: (a) universal; (b) particular; (c) singular. Sabemos, contudo, que analisar a mente nesta perspectiva não resolverá o nosso problema. O problema é: Qual é o lugar da mente? Corpos possuem uma localização espaço-temporal. E a mente? Aqui, entramos na terceira característica da mente. (c) A mente não pode ser situada no espaço e no tempo. Ora, acreditamos que a dificuldade de aproximarmos de uma melhor solução do problema corpo-mente é a forma de como esse problema é colocado, é proposto. Perguntamos pela localização da mente. Talvez se perguntássemos da importância de atuar neste mundo (material), obtivéssemos algumas pistas melhores, a respeito de sua existência e realidade. Os pensadores Gregos foram os melhores em colocar o problema: Se corpo e mente são duas coisas distintas, de natureza distinta, então não poderiam se relacionar. Por outro lado, se corpo e mente são uma e mesma coisa como explicar essa identidade? Ou ainda, essa interação? (d) A mente não possui uma história. A mente não possui uma história, na medida em que, por história entendemos as mudanças físicas, químicas ou biológicas que um corpo somente poderia sofrer. Por outro lado, se quisermos significar com o termo história, as modificações ou sua evolução a nível de idéias ou conceitos, talvez pudéssemos entender.
Mas, o que é a mente? Ora, se dissermos que a mente é “el lugar, o el centro o el poscedor de los pensamientos, sentimientos, experiencias sensoriales, lo mismo que el cuerpo es el lugar de los cambios fisiológicos.” (HOSPERS, 1984, p. 501), o problema é embaroçoso: podemos falar de um lugar para a mente da mesma maneira que falamos para o corpo? É claro que não. Basta rever o que foi apontado acima. Toda dificuldade reside no nosso entender, de como colocamos o problema. Mesmo se concordássemos que: “La mente es aquillo en lo que ocurren los sucesos mentales, igual que el cuerpo es aquello en que ocurren los sucesos físicos. Los sucesos físicos son partes de la historia de los cuerpos físicos, y los sucesos mentales, son partes de la historia de las mentes.” (HOSPERS, 1984, p. 501), o problema seguiria o mesmo que, acreditamos que deva ser evitado.
1.3 O Eu Objetivo (Self)
Há algo a mais? Nós podemos mudar o enfoque de nossa questão. Ora, para mudar o enfoque do problema, isto é, em vez de procurar o lugar da mente, assim como, o corpo tem o (ou teria) seu lugar definido, poderíamos referir ao Eu (Self). Mas, o que é esse Eu (Self)? Uma entidade independente do corpo e da mente? Ou, a própria mente? Aqui temos duas posições possíveis: (a) a primeira posição considera que o Eu (Self) é algo a mais, independente do corpo e da mente. São os pluralistas; (b) a segunda posição considera a mente como o próprio Eu (Self). São os dualistas. Vamos considerar agora a segunda posição, a saber, amente como o próprio Eu (Self). Consideremos então as seguintes proposições: “Tenho um metro e oitenta e cinco centímetros de altura”. Ora, nessa proposição há uma identificação entre a mente e o corpo. Neste sentido, poderia ser dito: “Meu corpo mede l,85 metros”. A outra proposição: “Estou pensando”. Ora, não posso dizer: “Meu corpo está pensando”, é claro que quando se diz: “Estou pensando”, estou me referindo a minha mente. Portanto, há uma identificação entre a mente e o Eu (Self). E, não é meu corpo que pensa, mas Eu (Self) que penso.
Neste sentido, “La mente es “mi yo esencial” (…) él cuerpo es una condición necesaria para pensar [ pois ninguém pode pensar sem ter um corpo, um cérebro], pero no es lo que piensa.” (HOSPERS, 1984, p. 502), mas não é condição suficiente. De certa maneira, tanto o corpo quanto a mente poderiam ser admitidos em sua natureza e existência. Mas, quando interrogamos o lugar, isto é, onde a mente está, há um embaraço total para uma resposta. Se isso não bastasse, objetos mentais misturam-se com objetos não-mentais, pois o Eu (Self) está junto com a mente. A pergunta é: como o Eu (Self) diferencia desejos e emoções, por exemplo, de teorias e argumentos? Estes dois tipos de objetos não são materiais. Ora, por isso estariam ou pertenceriam a mente ou ao Eu (Self). Mas, tais objetos possuem mesmo a mesma natureza ou são de naturezas distintas? As teorias científicas possuiriam a mesma natureza que as emoções e desejos? Dificilmente admitindo e aceitando corpo e a mente, poderíamos resolver uma incógnita como essa. Se pegássemos pelo conceito de Platão do que é participação, chegaríamos a concepção de que corpo e mente são de naturezas distintas e que, quando um se coloca o outro foge, escapa do nosso domínio ou cessam de existir. Diz ainda mais Platão: “Dessa forma, pois, é que se determina, como disse, a natureza das coisas, que, sem serem contrárias, não admitem a presença de seu contrário…” (PLATÃO, 1983, p. 112). Assim, a mente sem ser o corpo, não admite a presença de seu contrário. Aqui para nós há uma outra possibilidade: o Eu (Self) é algo a mais, é independente do corpo e da mente. O Eu (Self) não é subjetivo, fruto de uma introspecção ou de uma intuição intelectual. O Eu (Self) é uma propriedade ou objeto não-material e não-mental. O Eu (Self) não está inteiramente conectado com a mente. O Eu (Self) possui uma autonomia ou independência em relação a mente e em relação ao que é físico, que mais à frente será explicada em toda sua natureza e existência. Portanto, aquilo que chamamos de realidade possui três esferas ou mundos: a primeira esfera que representa o que é material; a segunda esfera que representa o que é mental e a terceira esfera que representa o Self, o Eu em seu estado objetivo. Essa posição é o Pluralismo Interacionista que iremos propor como o que há de melhor para a explicação da realidade.
1.4 Monismo
O problema Corpo-mente é ainda hoje um dos mais intrigantes problemas da humanidade. Sua abordagem é praticamente impossível a nível superficial. Contudo, não faltaram as explicações simplistas. A explicação monista embarca neste navio. Para um defensor do monismo, a realidade somente pode ser olhada, percebida em uma dimensão.
Essa dimensão ou é material ou é mental. Se for material, temos o Materialismo e, se for mental, teremos o Idealismo. O materialismo monista caracteriza-se pelo fato de negar qualquer dimensão mental da realidade. Dessa forma, o problema corpo-mente não é solucionado, é dissolvido. é um pseudoproblema, porque o que é material não interage com nada, não há o que ou quem para interagir. Essa é uma simplificação grotesca do problema. Porém, o idealismo monista não foge a regra. O idealismo monista caracteriza-se pelo fato de negar a dimensão material. As consequências são as mesmas. O problema Corpo-mente é dissolvido, tratado como pseudoproblema. Enfim, tanto no materialismo como no idealismo não há o problema corpo-mente, porque negando qualquer uma dessas dimensões não há interação e, não havendo interação não há o problema constituído. Apesar da simplificação grotesca do problema, como veremos, muitos foram os que aceitaram essas posições.[1]
1.5 Dualismo
A diferença do dualismo para o monismo é a de que, os defensores do dualismo enfrentam o problema corpo-mente, isto é, o problema existe efetivamente[2]. Para o dualismo, a realidade, não só pode como deve ser olhada, percebida em duas dimensões: a material e a mental. Portanto, não há uma negação de uma das dimensões no dualismo, mas há uma conjunção das duas realidades, digamos, dimensões. O dualista admite que a realidade é material e mental. As possíveis posições que surgem, admitindo essa tese inicial são as seguintes: (a) A matéria influencia a mente, mas a mente não influencia a matéria; (b) A mente influencia a matéria, mas a matéria não influencia a mente; (c) A matéria e a mente estão lado a lado, mas não se cruzam. São duas linhas retas, que vão lado-a-lado e não se cruzam; (d) A matéria influencia a mente e a mente influencia a matéria. A posição (a) é Epifenomenalista; a (b) é o animismo; a (c) é o paralelismo ou harmonia pré-estabelecida; e a posição (d) é o interacionismo dualista.
1.6 Pluralismo
O Pluralismo apesar de ter uma história, não é uma posição ainda muito bem compreendida. Seus adversários são geralmente os monistas. O Pluralismo é interacionista. Ora, isso significa dizer que a realidade não possui apenas uma ou duas dimensões, mas três ou mais dimensões. Os principais representantes do Pluralismo Interacionista hoje são Frege e Popper. O Pluralista é contra toda redução da realidade a uma só dimensão, seja esse material ou imaterial. A realidade deve ser explicada com tantas quantas dimensões forem necessárias.
Assim, falamos do corpo e da mente como sendo duas dimensões da realidade, porém, o Eu (Self) poderá e deverá representar uma dimensão distinta das outras duas. O que é Eu (Self)? Inicialmente, apenas diremos que o Eu (Self) é um mundo de objetos, ou seja, povoado por objetos que não são nem físicos e nem psíquicos ou mentais. Toda discussão centraliza-se na natureza e existência desse mundo e, obviamente, da sua função.
1.7 A Filosofia da Mente ou Teoria da Mente
(a) Em termos gerais a Filosofia da Mente ou Teoria da Mente é uma ramificação da filosofia que discute as relações entre o corpo e a mente. Nos estudos dessas relações questões como: a mente é distinta da matéria? É possível definir em que consiste ser consciente? Podemos fornecer razões de princípio para decidir se outras criaturas são conscientes (outras mentes), ou se é possível construir máquinas que sejam conscientes? O que é o pensamento, o sentimento, a experiência, a memória? Será útil dividir as funções mentais, separando a memória da inteligência, ou a racionalidade do sentimento, ou será que as funções mentais formam um todo integrado? – se tornam relevantes.[3]
(b) A Filosofia da Mente também, de um ponto de vista de definição, mantém alguma relação com a Filosofia da Psicologia? As relações são difíceis. Senão vejamos: a filosofia da mente nunca se converteu completamente em filosofia da psicologia porque a psicologia nunca alcançou o mesmo êxito das ciências naturais, conforme nos informa S. Körner.
Um outro motivo que fez com que a filosofia da mente não tenha alcançado o status de filosofia da psicologia, foi o fato de que, não há unanimidade entre os psicólogos e cientistas a respeito do objeto de estudo da psicologia. Nas ciências naturais, o objeto de estudo está muito bem delineado. O objeto de estudo das ciências naturais é a natureza física, no sentido mais amplo. Para Körner, a tarefa da filosofia da mente é a descrição dos fenômenos mentais e a análise filosófica das proposições que descrevem bem ou mal esses fenômenos. [4]
(c) Há relação entre a Filosofia da Mente e a Filosofia da Ciência? Os dois problemas fundamentais da epistemologia estão localizados precisamente dentro da Filosofia da Mente – o problema das relações entre o Corpo e a Mente – e da Filosofia da Ciência – o problema do progresso e da racionalidade científica. Mas, a relação mais importante talvez fosse a DEMARCAÇÃO. Na filosofia da ciência, o problema do progresso e da racionalidade científica passa necessariamente pelo fato de que precisa DEMARCAR o que é ciência e o que é metafísica ou não ciência, ou ainda, pseudociência. Ora, na filosofia da mente, o problema das relações corpo-mente passa também pela DEMARCAÇÃO entre fenômenos físicos e fenômenos psíquicos ou mentais. Aqui há uma grande aproximação entre o problema do Conhecimento (Filosofia da Ciência) e o problema da Metafísica (Filosofia da Mente).
(d) O Problema mente-corpo: Qual é esse problema? Há alguns pensadores que acreditam que o problema mente-corpo é o de compreender o lugar que a mente ocupa na natureza. É comum a resistência de muitos filósofos e pensadores em considerar a mente como o último refúgio contra qualquer posição cientificista. Por isso, muitas vezes considerar o problema mente-corpo como o de compreender o lugar que a mente ocupa na natureza, seria para muitos uma cientificação ou cientifização deste “reduto sagrado”. O que fazer? Negar qualquer explicação científica sobre a mente ou redefinir o problema? Ora, efetivamente o problema só existe se falarmos sobre mentes e corpos. Caso contrário, o problema não existe. Por aqui, podemos deduzir o seguinte: ou nega-se a existência do corpo ou da mente, descaracterizando o problema e tratando como um pseudoproblema, ou aceita-se o dualismo para iniciar-se uma discussão. O Monismo em muitas de suas versões é inviável para nós porque simplesmente nega a existência da mente ou do corpo, concluindo-se daí que o problema é absolutamente falso ou que também não existe.
Em qualquer das posições que tomarmos, isto é, de aceitar a explicação científica ou de redefinir o problema, teremos que aceitar que há duas dimensões da realidade, no mínimo: o corpo e a mente. Por isso, aqui defenderemos o dualismo em detrimento do monismo. Significa que negaremos os resultados da ciência? Não. Aceitaremos os resultados da ciência mesmo porque, e aqui é uma crença, resultados da ciência até hoje não contradisseram o dualismo ou mesmo a existência de uma mente. Mas, também apostamos em uma redefinição do problema mente-corpo. Redefinir o problema significaria aceitar o interacionismo entre mente e corpo. Assim, o problema já não é mais o lugar que a mente ocupa na natureza, mas a existência e realidade de um mundo objetivo como forma de iniciar-se uma compreensão das relações mente-corpo. O problema, dessa forma, ganha outra abordagem. Não é só o fato de se aceitar a existência do corpo e da mente; não é só discutir as relações mente-corpo (dualismo); mas é sobretudo, discutir a possibilidade de um mundo objetivo como aproximador entre mente e corpo. Sendo que, em última instância, valores humanos como a liberdade seriam salvos a partir dessa possibilidade.
Ora, enquanto essa abordagem ainda é mal compreendida ou ignorada, reina a falta de consenso em explicar como as pessoas podem ter propriedades físicas da matéria e ser portadoras de uma “vida” mental. A questão da liberdade está aí: como conciliar o TER e o SER?
(e) Liberdade: A consequência imediata de uma resposta ao problema mente-corpo é a aceitação ou não da liberdade humana, como um valor humano. É o conflito entre Ser e Ter que melhor define o problema da liberdade humana. As concepções materialistas e monistas encaram a liberdade como um pseudo-problema. Diz Stephan Körner neste sentido: “El problema, o mejor dicho, el pseudo-problema, de la liberdad surge al confundir la coartación – por ejemplo la coartación de un prisionero que no es “libre” para abandonar la presión – com la libertad como opuesta a la necesidad que rege el universo del que el hombre es parte”. (KÖRNER, 1984, p. 304). O que se valoriza, nas concepções materialistas e monistas, é o TER e não o SER LIVRE. As concepções idealistas e monistas não fogem da regra. Por exemplo, para Hume que é um e o maior representante do fenomenismo, a liberdade não existe, é uma disputa verbal, pois a liberdade não pode ser oposta à necessidade, mas admitindo a necessidade não há liberdade. A liberdade em oposição a necessidade é ausência de determinação. Ora, a necessidade é a determinação do sujeito, dos seus pensamentos que infere a existência desse ato (de pensar) de algum objeto anterior. Logo, não há liberdade porque não podemos inferir algum objeto que anteceda o ato de SER livre. Nas concepções dualistas, a liberdade torna-se possível. Ms, como? Muitas vezes o conceito de liberdade não passa de uma abstração. Para Kant, defensor do dualismo interacionista, a liberdade está vinculada a crença de que o homem é um ser inteligível (númeno ). Essa defesa da liberdade, para Kant, é coerente com a crença de que o homem como fenômeno, isto é, como parte da ordem natural está sujeito ao determinismo causal universal – que é o pressuposto necessário da ciência. Portanto, o pensamento (o inteligível) abstrato arranca-o do determinismo causal. O pensamento é um estado de liberdade perfeito. Diz Kant na “Crítica da Razão Pura”: “Eles próprios possuem razões de ser que não são fenômenos. Ora, uma tal causa inteligível, no que diz respeito à sua causalidade, NÃO É determinada, por fenômenos (…) A ação pode, pois, do ponto de vista da sua causa inteligível, ser considerada como LIVRE, e contudo do ponto de vista dos fenômenos, como um fato que resulta dos seus encadeamentos segundo a necessidade natural”. (KANT, B565; A537 ).
(f) Fenômenos físicos e fenômenos mentais: o que são fenômenos físicos e fenômenos mentais? Há uma relação entre os fenômenos físicos e mentais? Qual? Se não há, como podemos dizer algo deles? Os fenômenos que são físicos o são porque estão submetidos a uma relação de causalidade, isto é, de causa e efeito. Neste sentido, tudo o que ocorre na natureza, ocorre porque há uma razão. Como J. S. Mill salienta, as circunstâncias antecedentes (causas) podem ser várias em relação a um dado fenômeno (efeito). Porém, a circunstância (causa) A corresponde ao fenômeno (efeito) a porque se diferem por uma circunstância. Vejamos:
Método da Diferença de Mill
Circunstância Fenômenos
ABC a
BC –
Logo, A é uma parte indispensável da causa de a.
Diz Losee: “Mill considerava o Método da Diferença como o instrumento mais importante para a descoberta das relações causais.” (LOSEE, 1979, p. 162) Os fenômenos mentais não se encontram nessa relação de causalidade. Isso por si mesmo torna difícil a compreensão do que é um fenômeno mental. Porém, alguma luz no fim do túnel podemos vislumbrar. Por exemplo, fenômenos mentais podem ser classificados em três níveis: (a) o primeiro nível é o da Epistemologia ou Teoria do conhecimento em que está em jogo a apreensão de verdades de fato. Assim, fazem parte deste nível, como fenômenos mentais, percepções, crenças e conhecimentos; (b) no segundo nível encontramos aquilo que pertence a teoria dos valores ou axiologia. Ocorre, neste nível, a apreensão de valores como os critérios de conduta, de moral e de estética; (c ) o terceiro nível abarca tanto a teoria do conhecimento como a teoria dos valores; isto é, verdades de fato e valores. Neste sentido, desejos e emoções compõe este nível.
Ora, podemos estabelecer algumas diferenças entre fenômenos físicos e fenômenos mentais? Algumas dessas características serão retomadas a frente. Cabe-nos apenas registrá-las. Para os fenômenos físicos temos as seguintes características: (a) Podem ser localizados no tempo e no espaço; (b) são observáveis publicamente; quanto aos fenômenos mentais: (a) ocorrem no interior da cabeça das pessoas, como por exemplo, a sensação; (b) somente podem ser observados por uma pessoa.
(g) Outras Mentes. Um último ponto que queremos considerar nesta introdução é a questão das Outras Mentes. Na verdade, essa questão é um prolongamento do problema Mente- Corpo. A questão pode ser colocada da seguinte forma; Como eu sei que há uma consciência ou uma mente naquele corpo que está ao meu lado? Conforme tratamos essa questão, ela pode ser fonte de Ceticismo. Pois bem, vamos considerar o fenômeno da dor. O que podemos dizer sobre a dor? Posso sentir a dor do outro? Eu posso verificar a dor do outro mas não posso entender o seu significado. Eu sinto a minha dor e, apenas posso constatar o efeito da dor do outro. Posso verificar o efeito, por exemplo, lágrimas nos olhos, irritabilidade; etc…, mas não posso pegar o verdadeiro sentido da dor do outro. Podemos dizer que ocorre o mesmo com outros estados mentais? Ora, Eu (Self) e você até podemos conhecer a dor do outro, mas não podemos experimentá-la. Eu só posso inferir que o outro está com dor porque conhecer é inferir. Agora, eu não posso experimentar porque experimentar é vivenciar. Eu não posso VIVER com toda a intensidade a dor do outro. O outro é o outro. Em conclusão, só poderia conhecer (saber) da dor do outro, se e somente se, fosse além dos efeitos (verificação). Não há como ser o outro. para sentir a dor do outro. Pois bem, se todos os estados mentais só puderem ser olhados nesta óptica, então uma posição cética e solipsista se impõe. Como escapar do cético? Ora, pode até ser que eu sinta a dor que o outro está a sentir, porém não posso conhecer se a dor que eu sinto é a dor que o outro sente. Mas estão todas as situações de obtenção do conhecimento, neste mesmo nível, isto é, possuem esta mesma natureza? O cético só iria se impor caso todas situações de obtenção do conhecimento fossem desta única natureza. O cético surge quando: (a) eu quero conhecer se efetivamente eu tive conhecimento, ou o outro teve conhecimento de algo; (b) eu quero conhecer se eu sinto o que o outro sente; (c) eu quero conhecer se a minha vontade pode ser a vontade do outro. Ao que parece todo o problema girará em torno do conhecimento. Se não há conhecimento envolvido não há nenhuma posição cética.
Um outro exemplo a ser discutido e, levaria a consequências semelhantes ao que consideramos sobre a dor, é a cor. Mas, o que podemos dizer a respeito da cor? Eu e o outro podemos ter a mesma experiência de azul. Podemos, sim. Mas, aqui experimentar, como no exemplo sobre a dor, é vivenciar algo ou alguma coisa. A cor azul provoca em mim o no outro praticamente as mesmas sensações, mas a vivência desta é diferente. Posso conhecer a mesma cor que o outro conhece; ou, estou a sentir o mesmo que o outro senti, quando vê o mesmo objeto azul? Ou ainda, um objeto azul provoca em mim uma vontade de … de mesma natureza que a do outro? Enfim, posso conhecer algo destas situações? Fazer referência ao fato que o outro possa ser daltônico não resolveria a situação? O Daltonismo é a incapacidade de fazer distinção entre as cores. Assim, o daltônico não diferencia o roxo do verde. Mas, isso servia para dizer que eu conheço a cor que o outro não conhece? Não necessariamente. Por fim, para a questão se podemos conhecer outras mentes, a resposta é sim, mas sem uma base racional. Aqui há várias implicações: o que queremos dizer com o termo “conhecimento” e “racional”? Mas, isso é um outro capítulo do problema.
Um tentativa de solução para o problema de Outras Mentes é reduzir todos os acontecimentos mentais a acontecimentos físicos. Ora, partindo da idéia que poderíamos mensurar acontecimentos ou fenômenos físicos, então essa seria uma resposta para o fato do outro poder conhecer o mesmo que eu conheço. Conceitos polêmicos como “pensamento” poderiam ser definidos ou explicados como impulsos eletroquímicos que possam pelos condutos neuronais do cérebro; a dor, nada mais seria do que um estímulo, um certo tipo de estímulo, das terminações nervosas; o “calor” poderia ser tomado como um movimento de moléculas. Quanto mais rápido esse movimento, sentiríamos mais calor e, por outro lado, quanto mais lento esse movimento menor seria o calor. Heráclito quando estabeleceu o princípio organizador (PHYSIS) do universo, isto é, da natureza e da sociedade como sendo o FOGO, estivesse pensando em algo desta e envergadura. Até mesmo as palavras poderiam ser definidas por um físico como longitude de ondas. Tudo estaria claro e distinto se nós não acusássemos esta posição de falaciosa. Mas, falaciosa por que? Essa posição é reducionista e essa redução parte do pressuposto que tudo aquilo que nós consideramos mental pode, em última instância, devem ser explicadas por causas físicas. Assim, poderíamos perguntar; o materialismo é um produto dessa falácia reducionista? Por outro lado, o idealismo em geral, não poderia ser reducionista? Portanto, incidir na mesma argumentação falaciosa? O idealismo em geral poderia cair na falácia reducionista por que a sua tese geral é a de que tudo é mental e nada é físico. Da mesma maneira, o materialista escorrega na falácia reducionista, porém com a tese de que tudo é material ou físico e nada é mental. Para os idealista há mente e não há matéria. De forma geral, a matéria ou corpo é produto de nossas mentes. Por outro lado, para os materialistas, a mente ou espírito é produto da matéria. Para um materialista não há mente (a) nem como totalidade dos acontecimentos mentais; (b) nem como substância que seriam inerentes aos estados mentais; (c) nem como pensamentos, sensações, emoções, etc… considerados isoladamente ou em conjunto. Portanto, os acontecimentos (fenômenos) mentais são de natureza física. Para um idealista não há matéria, e, arriscaríamos dizer; (a) nem como totalidade dos acontecimentos (fenômenos) físicos da natureza; (b) nem como substância que seriam inerentes aos fenômenos físicos; (c) nem como impulsos eletroquímicos, estímulos nervosos, moléculas, etc… Tanto uma posição como outra é forçada. As duas posições incorrem em uma falácia reducionista, cada de acordo com a sua perspectiva. Podem ser refutadas empiricamente? Não. Podemos argumentar logicamente contra elas, contudo não há nenhuma refutação conclusiva. O cético novamente sabe impor-se, pois colocaria a seguinte questão para o idealista: Como posso conhecer se EU tão somente tenho uma mente? Já, para o materialista: Se não há uma mente, como poderia haver o conhecimento de algo ou alguma coisa, seja o que for? Em síntese, perante a questão (a) qual é o problema da filosofia da mente? [5]A nossa resposta é a de que o problema da Filosofia da Mente não é tanto o de demarcar e distinguir a classe dos fenômenos mentais da classe de fenômenos físicos, (b) e nem mesmo o de como podem ser reduzidos os fenômenos mentais ou analisados em termos de fenômenos físicos. O problema fundamental da Filosofia da Mente é o de explicar, definir ou mesmo justificar as relações entre corpo e mente. É claro que as questões levantadas acima tem a sua importância, junto com outras como por exemplo: o que entendemos por Mente? Ou mesmo, por Corpo? Estas questões são mais de definições. A questão fundamental é de justificativa, e as questões acima: (a), (b) e (c) são de nível expl
[1] Como defensores do Materialismo Monista há (a) aqueles que negam a existência da mente e, atribuem existência somente ao corpo. Estes são os materialistas Eliminativos ou codutistas; (b) há aqueles que reduzem todos os aspectos mentais ao que é físico. É o caso do Materialismo Reducionista ou fisicalismo; (c) E, há aqueles que a mente não passa de um conjunto de bioatividades emergentes ou funções cerebrais emergentes. Este é o caso do Materialismo emergencista; (d) E, por fim, há aqueles que encontram uma identidade entre o mental e o físico. São os defensores da teoria da identidade. Como defensores do Idealismo Monista encontramos as seguintes posições: (a) Não existe o físico, o material, o corpo. Só existe a mente. Esse é o Idealismo. O Corpo é produto da mente; (b) Há aqueles que consideram que a mente (ou mesmo, a vida) está no interior de toda matéria assim como a mente está no interior, está dentro do corpo (do cérebro). Este é o Panpsiquismo; (c) Por último, há aqueles que consideram que a experiência não é nada mais do que uma sucessão de estados conscientes. Estes são os fenomenistas ou fenomenalismo.
[2] Algo a acrescentar é que para o monista toda a discussão do problema corpo-mente é simplificada a nível de definições. Assim, o que se consegue com o monismo é perguntar, por exemplo, o que é o corpo ou que é a mente. Mas, definições nunca se constituíram em problemas relevantes. Para o dualista, o problema corpo-mente surge pela interação entre o corpo e a mente, pela sua natureza e existência que devem ser explicados sem escorregar ou entrar em círculos viciosos de definições.
[3] Para Mário Bunge, as questões fundamentais da filosofia da Psicologia são: “o que é a mente: uma substância SUI GENERIS, ou um conjunto de funções cerebrais? Que relação existe entre os eventos mentais e seus indicadores fisiológicos e condutivos?” (BUNGE, 1980, p. 16).
[4] Importante ter presente que M. Bunge, como materialista emergencista, não distingue filosofia da mente e filosofia da psicologia. No caso de S. Körner há uma distinção entre essas duas filosofias. Acreditamos que os motivos vão desde o fato de que M. Bunge defende uma visão cientificista do problema corpo-mente, passando pelo fato de que sua posição é a de um materialista emergencista, e alcançado o mais alto degrau, isto é, sua visão da realidade é monista e, sua rejeição pelo dualismo é clara. S. Körner não deixa claro sua posição.
[5] Meu tema é grande, mas tenho de passar a primeira metade do livro delineando-o . E, enquanto não o fizer, reluto em falar sobre seu tamanho ou peso. Quanto à sua forma porém, posso dizer imediatamente qual é: ele tem a forma do Problema Mente-Corpo. // É o problema de explicar como surgem nos cérebros humanos os estados de consciência. Mais especificamente ( e terei de ser mais específico no devido momento) é o problema de explicar como os sentimentos surgem nos cérebros humanos. (HUMPHREY, 1994, p. 3) (grifo nosso)