Sônia Rosane Netz[1]
O desenvolvimento da sociologia não pode ser desvinculado da industrialização crescente da sociedade e do desenvolvimento do capitalismo. Mesmo que anteriormente à Revolução Industrial já existissem filósofos que se preocupassem com problemas sociais, principalmente quanto ao aspecto moral, é no processo de industrialização que a sociologia começa a se constituir enquanto disciplina específica. Esta vinculação entre desenvolvimento da disciplina com o desenvolvimento histórico do capitalismo torna-se também característica nos nossos dias, quando a explicação sociológica passa por uma crise, o desenvolvimento industrial também apresenta-se em fase de transição.
Muitas teorias como o marxismo, ou as teorias sociológicas de inspiração positivista como as de Durkheim são postas a prova. O marxismo que foi durante muitos anos uma explicação considerada suficiente e completa, hoje já não tem o mesmo status.
A tendência atual passou de explicações que não percebiam solução para a sociedade que não fosse a revolucionária, para tentativas mais reformistas1. Nesta trajetória estão inúmeras divergências quanto ao como deve ser concebido o indivíduo, a sociedade, o Estado. O que é predominante na sociedade: conflito, estrutura, indivíduo, consenso? O que realmente seria esta sociedade: uma estrutura dada, um sistema, em que deveremos descobrir as leis de funcionamento? Ou, uma sucessão de modos de produção, em que o posterior é o resultado das contradições surgidas no interior do modo de produção antecedente? Ou, na impossibilidade estudar a sociedade como uma totalidade, somente alcançando algum sucesso no estudo de ações que os sujeitos realizam com sentido a fins?
Esta trajetória de formas de explicação pode ser exemplificada nos principais autores clássicos da sociologia. Mesmo sendo pensadores que viveram no final do século passado e início deste século, portanto apresentam as limitações do contexto em que viveram, suas formulações teóricas até os nossos dias estão presentes na explicação sociológica. Suas teorias aceitas ou refutadas estão incorporadas na nossa história. Tentaremos colocar alguns elementos do que caracteriza cada teoria, como trata-se de um resumo está bem longe de esgotar a obra de cada pensador. Os aspectos abordados serão posteriormente relacionados com determinados aspectos e problemas característicos da sociologia nos dias atuais, daí resulta de salientarmos apenas alguns aspectos deixando outros de lado. Passemos a um breve histórico das principais teorias sociológicas clássicas.
A partir do século XIX e início do século XX surgem as principais teorias sociológicas: Neste trabalho serão analisados alguns conceitos de Marx, 1845-1848 (A Ideologia Alemã), Durkheim , 1895 (As Regras do Método Sociológico) , Weber, 1909 (Início de Economia e Sociedade) 1913 (Ensaio sobre Algumas Categorias da Sociologia Compreensiva).
Marx que reage ao idealismo alemão por este tentar analisar o mundo através de uma fraseologia que não refletiria a realidade. Para Marx, os homens se diferenciam dos animais na medida em que começam a produzir seus meios de existência, desta forma produzem sua vida material. O modo de produção não é somente a forma como as pessoas reproduzem sua existência física, mas também a forma de determinar um modo de vida. O que as pessoas são depende as condições materiais de produção. No decorrer da história humana foram surgindo novas divisões do trabalho, novas formas de como os indivíduos se relacionam entre si, no que se refere aos instrumentos e aos produtos do trabalho. Ou seja toda força produtiva nova provoca um novo aperfeiçoamento da divisão do trabalho. Neste processo a primeira forma de divisão do trabalho é a tribal, a seguir vem a antiga, a feudal, e por fim a moderna. 2
A dependência universal, essa forma natural da cooperação dos homens em escala histórico-mundial, é transformada, pela revolução comunista, em controle e domínio consciente dessas forças que, engendradas pela ação recíproca dos homens em si, lhes foram até agora impostas, como se fossem forças totalmente estranhas, e os dominaram. (…)todas as formas e produtos da consciência podem ser explicados, não pela crítica intelectual, pela redução à “consciência de si” ou a metamorfose em “aparições”, em “fantasmas”, etc,. mas apenas pela inversão prática das relações sociais concretas, que deram origem a essas tolices idealistas. Não é a crítica, mas a revolução, que constitui a força motriz da história, da religião, da filosofia, e de qualquer outra teoria. 3
Marx como crítico do processo de industrialização que ocorria em sua época observa que no desenvolvimento das forças produtivas surgem as máquinas e o dinheiro (forças produtoras e meios de circulação) que são prejudiciais, são forças destruidoras das relações existentes. Em decorrência surge uma classe que suporta todo o peso da sociedade sem obter nenhuma vantagem, esta classe é a maioria da sociedade e portanto surge a necessidade de tomada de consciência e de uma revolução radical. É contra a classe dominante que tem o poder do Estado que a luta revolucionária deve ser empreendida. A revolução comunista diferencia-se das anteriores pois suprimirá o trabalho e eliminará a dominação de uma classe por outra. Somente a revolução tornará possível estabelecer uma sociedade em novas bases.4
Durkheim que tem influência da teoria positivista não esta preocupado com um estudo da sociedade em seu aspecto moral, como teoria do dever ser mas, a sociologia como o estudo dos fatos sociais que são as “maneiras de agir, de pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de existir fora das consciências individuais”… “são exteriores ao indivíduo, são também dotadas de poder imperativo e coercitivo, em virtude do qual se lhe impõem, quer queira, quer não.”5
O estudo destes fatos sociais que são externos ao indivíduo dá elementos para que Durkheim estude objetivamente a possibilidade de manter a ordem social frente a modificações decorrentes da industrialização. Em sua obra “Da divisão do trabalho social”, Durkheim descreve a solidariedade social. Quanto mais desenvolvida a divisão do trabalho, mais produziria a solidariedade. Porém resta, para Durkheim estabelecer até que ponto esta solidariedade é essencial como fator de coesão social. Existe a solidariedade mecânica, aquela em que desaparece a individualidade, a consciência coletiva abrange toda a consciência do indivíduo, o indivíduo torna-se um ser coletivo, o indivíduo não se pertence. Mas a solidariedade orgânica é totalmente diferenciada, como sendo o produto da divisão do trabalho, “só é possível se cada um tiver uma esfera própria de ação e, consequentemente, uma personalidade. É preciso, pois, que consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência individual, para que se estabeleçam essas funções especiais que ela não pode regulamentar; além disso, esta região é extensa, mas a coesão que resulta desta solidariedade é mais forte.6
Trata-se pois de uma lei histórica que a solidariedade mecânica, que inicialmente é a única ou quase, perde terreno progressivamente e que a solidariedade orgânica se torna pouco a pouco preponderante. Mas quando a maneira pela qual os homens são solidários se modifica, a estrutura das sociedades não pode deixar de mudar.
(…) Existe pois uma estrutura social de determinada natureza, à qual corresponde a solidariedade mecânica. O que a caracteriza é que ela é um sistema de segmentos homogêneos e semelhantes entre si.
(…) Inteiramente diferente é a estrutura das sociedades onde a solidariedade orgânica é preponderante. (…) são constituídas (…) por um sistema de órgãos diferentes, cada um dos quais tem um papel especial e se forma de partes diferenciadas.
(…)É preciso pois que a matéria social entre em combinações inteiramente novas para se organizar sobre outras bases.
(…) A história desses dois tipos mostra que, de fato, um só progrediu na medida em que o outro regrediu.7
Já para Max Weber a sociologia é a ciência que pretende entender, interpretando a ação social para poder explicar casualmente o seu desenvolvimento e efeitos. Por ação Weber entende a conduta humana em que o sujeito ou os sujeitos imprimem a ela um sentido subjetivo. Para Weber o método científico consiste na construção de tipos ideais puramente racionais em que a confrontação destes com a ação real mostrará todas as irracionalidades e desvios no desenvolvimento previsto da ação racional.8 Weber faz uma análise de três tipos puros de dominação legítima que são as dominação legal, tradicional e carismática. Como tipo mais puro de dominação legal, a burocracia é analisada em Weber como uma forma em ascensão no capitalismo moderno.9
Weber não aceita que o conhecimento científico seja capaz de reproduzir uma ordem objetiva, descoberta de leis, pois a realidade é composta de uma variedade de fenômenos. O conhecimento apenas atribui ordem a determinados aspectos selecionados desta realidade empírica. Não existem estruturas sociais com sentido intrínseco fora daqueles sentidos que os indivíduos atribuem às suas ações.10
Estes autores, com algumas ressalvas a Max Weber, mesmo que tendo divergências quanto ao caráter da teoria social, ora estando mais perto de um ideal filosófico e político, disciplina histórico-social, como o marxismo; ora sendo uma disciplina voltada para a pesquisa empírica e analítica, como a visão positivista. Porém o pano de fundo sempre foi a industrialização. A capacidade do ser humano em conseguir, através do estudo científico, racionalizar o desenvolvimento humano.
Conforme Alain Touraine, “o pensamento historicista, tanto em Marx como em Hegel ou Comte, introduz a idéia do homem fazendo a sua história apenas para logo suprimi-la, porque a história é a da razão, ou é uma caminhada para a transparência da natureza, o que nada mais é que uma outra versão da mesma crença geral”. 11
No presente momento em que estamos na passagem para o século XXI novas formas de organização do capital suscitam novas concepções, novas abordagens, novos referenciais teóricos. As teorias sociológicas clássicas para alguns estudiosos devem ser abandonadas, para outros devem ser redimensionadas. As concepções sociológicas que baseavam-se no positivismo são criticadas por estarem impregnadas de uma razão instrumental. Já as concepções sociológicas de conotação marxista são descartadas pelo fato de terem por pressuposto um sentido da história que no desenvolvimento concreto não se realizou. A sociologia compreensiva de Max Weber é que tornou-se, apesar de utilizada mas nem sempre admitida, mais de acordo com uma visão contemporânea do que seria o objeto da sociologia. A utilização da análise hermenêutica que da filosofia também passou a ser ferramenta na sociologia tem muita proximidade com a proposta weberiana de interpretar a ação racional com respeito a fins. A seguir passaremos a uma análise de propostas mais atuais quanto ao objetivo da análise sociológica.
Como uma proposta critica à sociologia clássica, dentre outras, aparece a proposta de Alain Touraine, para ele a sociologia deveria resgatar o papel dos movimentos sociais e dos atores sociais. Ao invés de estudar a Sociedade, deveria estudar as condutas e relações sociais. Os atores sociais procuram gerir sua historicidade (nível de ação). A cultura torna-se “um desafio, um conjunto de recursos e de modelos que os actores sociais procuram gerir, controlar, de que se apropriam ou cuja transformação em organização social negoceiam entre si. As suas orientações são determinadas pelo trabalho colectivo, pelo nível de acção (de produção de si) que as colectividades consideradas exercem sobre si mesmas.”12
Nesta proposta observa-se certos elementos que estão cada vez mais presentes na atuais tendências da sociologia. A procura de leis gerais já não é tarefa da sociologia. A cultura passa a ser um local privilegiado do estudo da sociologia. O estudo da ação social e de atores sociais que procuram conquistar sua historicidade desloca o caráter de contradição inerente e revolução inevitável que estava presente na teoria marxista.
Na medida em que a sociedade se complexifica na análise sociológica também surgem novas interpretações. Pierre Bourdieu desenvolve o conceito de poder simbólico que é “esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo o exercem.” (…) Os símbolos são os instrumentos por excelência da “integração social”: enquanto instrumentos de conhecimento e comunicação (…) tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem social: a integração lógica é a condição da integração moral”. Este poder consegue transformar relações que anteriormente eram de força na medida que tornam-se simbólicas produzem os mesmos efeitos sem a mesmo gasto de energia. 13 Estes conceitos tornam-se importantes para o estudo da política, dos meios de comunicação, e das relações entre as pessoas que estão cada vez mais carregadas de simbologias. Também está presente uma critica ao marxismo, pois o poder não se concentraria somente em relações de classe, mas estaria presente em todos os âmbitos da sociedade.
Anthony Giddens em sua teoria da estruturação tenta construir um referencial teórico que não descarte as teorias sociais já existentes, mas as utilize mesmo que em um quadro referencial distinto do que aquele que as originou. As teorias funcionalistas e estruturalistas evidenciam a preponderância do todo social sobre as partes. Já na hermenêutica a subjetividade torna-se o centro. Assim:
Se as sociologias interpretativas se assentam, por assim dizer, num imperialismo do sujeito, o funcionalismo e o estruturalismo, por seu lado, propõem um imperialismo do objeto social. Uma de minhas principais ambições na formulação da teoria da estruturação e por um fim a cada um desses esforços de estabelecimento de impérios. O domínio básico de estudo das ciências sociais, de acordo com a teoria da estruturação, não é a experiência do ator individual nem a existência de qualquer forma de totalidade social, mas as práticas sociais ordenadas no espaço e no tempo.14
Giddens também relaciona um aspecto interessante que é a reflexividade das teorias. “A questão é que a reflexão sobre processos sociais (teorias e observações sobre eles) continuamente penetra, solta-se e torna a penetrar o universo de acontecimentos que eles descrevem.” 15 Desta forma, “ a teorização de seres humanos acerca de sua ação significa que, assim como a teoria social não foi uma invenção de teóricos sociais profissionais, também as idéias produzidas por esse teóricos tendem inevitalmente a ser realimentadas dentro da própria vida social.”16
Na teoria da estruturação de Giddens estes elementos destacados, ou seja sua abertura para aproveitamento de várias tendências explicativas que vão desde conhecimentos de teoria hermenêutica, filosofia da linguagem, estudo sobre a rotinização e vida cotidiana, etc. , revela uma preocupação cada vez mais crescente na sociologia em não se fechar em tendências e antagonismos inegociáveis. Se em termos de desenvolvimento histórico a guerra fria acabou, em termos sociológicos também torna-se importante uma abertura e reavaliação dos principais pressupostos da teoria sociológica clássica com um aproveitamento de recentes acréscimos da história, arte , filosofia, geografia, entre outras disciplinas. Também a reflexividade torna-se interessante de ser estudada, pois um estudo sociológico não vai ser analisado somente em termos de seu objeto de estudo mas também de seu impacto na sociedade. Pois existe um movimento constante de realimentação das teorias na vida social.
Outro autor contemporâneo que têm contribuições importantes é Habermas. Em seu texto, Técnica e Ciência enquanto “Ideologia”, critica a crescente racionalização da sociedade com a institucionalização do progresso científico e técnico. O crescimento das forças produtivas no capitalismo ultrapassa todos os limites históricos. Observa os limites do agir-racional-com-respeito-a-fins citando Marcuse, “o método científico que levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza passou assim a fornecer tanto os conceitos puros como os instrumentos para a dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem através da dominação da natureza. (…) Hoje a dominação se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia, mas enquanto tecnologia, e esta garante a formidável legitimação do poder político em expansão que absorve todas as esferas da cultura”.17Também, segundo Habermans, “o senso comum positivista põe fora de ação os sistema de referência da interação em linguagem corrente, na qual dominação e ideologia surgem sob condições de comunicação deformada, mas onde elas também podem ser reflexivamente evidenciadas.”18 Habermas desenvolve o conceito de agir comunicativo que é uma “interação mediatizada simbolicamente. Ela se rege por normas que valem obrigatoriamente, que definem as expectativas de comportamento recíprocas e que precisam ser compreendidas e reconhecidas por, pelo menos, dois sujeitos agentes. (…) Seu sentido se objetiva na comunicação mediatizada pela linguagem corrente.”19 Desta forma a análise sociológica deve incluir o estudo da linguagem.
A nova ideologia fere, portanto, um interesse que se prende a uma das duas condições fundamentais da nossa existência cultural: a linguagem, ou, mais precisamente, a forma de socialização e de individuação determinada pela comunicação na linguagem corrente. Esse interesse se estende tanto à manutenção de uma intersubjetividade de compreensão mútua como à produção de uma comunicação livre de dominação. A consciência tecnocrática faz desaparecer esse interesse prático, por trás do interesse pela ampliação do nosso poder de manipulação técnica. A reflexão provocada pela nova ideologia deve ir além de qualquer interesse de classe historicamente determinado e por a descoberto a contextura de interesses de uma espécie, como tal, que se constitui a si mesma. 20
Habermas tem preocupação de relativizar uma série de conceitos marxistas como conexão entre forças produtivas e relações de produção, lutas de classes, teoria do valor trabalho, pois somente a crítica da economia política não seria suficiente como uma critica ao capitalismo. As mudanças observadas na época em que escreve o artigo, 1968, mostram que o advento da comunicação de massa, a despolitização da massa da população, a aplicação de programas de substitutivos que assegura um certo grau de bem-estar mínimo em troca da fidelidade das massas colocam novos desafios na análise do capitalismo.
Tendo uma análise bem mais recente, Canclini, também abre mais o leque de possibilidades na análise sociológica, apesar de se declarar antropólogo, suas considerações são pertinentes na Ciências Sociais como um todo. O recente fenômeno da globalização mostrou uma gama variada de problemas. Na ordem do dia estão as questões de identidade versus globalização, cultura, cidadania e também consumo. Em sua obra Consumidores e Cidadãos, ele pretende analisar o quanto as mudanças na forma de consumir podem alterar as possibilidades de se exercer a cidadania. O consumo desta forma não é visto somente como um ato compulsivo, mas um conjunto de processos socioculturais. Para que o consumo se articule com o exercício da cidadania é necessário, para Canclini, “uma oferta vasta e diversificada de bens e mensagens representativos da variedade internacional dos mercados, de acesso fácil equitativo para as maiorias; (..) participação democrática dos principais setores da sociedade civil nas decisões de ordem material, simbólica, jurídica e política em que se organizam os consumos”.
Estas ações, políticas, pelas quais os consumidores ascendem à condição de cidadãos, implicam numa concepção do mercado não como simples lugar de troca de mercadorias, mas como parte de interações socioculturais mais complexas. Da mesma maneira, o consumo é visto não como a mera possessão individual de objetos isolados mas como a apropriação coletiva, em relações de solidariedade e distinção com outros, de bens que proporcionam satisfações biológicas e simbólicas, que servem para enviar e receber mensagens.21
Na relação entre globalização e identidade Canclini faz observações bem interessantes. Para ele Globalização também tem cultura, os homens se relacionam, construindo significados em sociedade. Quanto a identidade, esta não pode ser tomada somente em seu aspecto de um ser coletivo a partir de terra ou sangue. A identidade pode assumir aspectos fundamentalistas em certos casos, torna-se necessária, portanto, superar a preocupação metafísica de perda da identidade.22Assim:
Estudar o modo como estão sendo produzidas as relações de continuidade, ruptura e hibridização entre sistemas locais e globais, tradicionais e ultramodernos, do desenvolvimento cultural é, hoje, um dos maiores desafios para se repensar a identidade e a cidadania. Não há apenas co-produção, mas também conflitos pela coexistência de etnias e nacionalidades nos cenários de trabalho e de consumo; daí as categorias de hegemonia e resistência continuem sendo úteis. Porém, a complexidade dos matizes destas interações demanda também um estudo das identidades como processos de negociação, na medida em que são híbridas, dúcteis e multiculturais. 23
Os impactos da globalização e a construção da cidadania são questões que estão presentes na atualidade. Canclini tenta fazer uma teorização baseada em suas pesquisas. Quando relaciona consumo e cidadania tem a perspectiva de que dentro deste mercado poderão ser estabelecidas certas condições que permitiriam a cidadania. A cidadania consistiria em apropriação da estrutura capitalista. A teoria não está mais na perspectiva de que somente com uma revolução esta cidadania seria estabelecida. Já quanto a globalização, também esta poderia assumir um caráter diferente, analisar somente a globalização econômica restringe muito o processo. Talvez Canclini tenha razão, somente uma globalização a nível de pertencimento entre as pessoas poderia fazer frente a uma globalização econômica.
Este panorama das principais idéias dentro da sociologia e também das ciências sociais mostra um desenvolvimento que foi de uma perspectiva em que a revolução era inevitável no processo de desenvolvimento histórico até o presente momento em que as teorias, mesmo aquelas que tentam uma opção de esquerda, estão mais tendentes a uma opção menos revolucionária e mais reformista. Esta opção não pode ser atribuída a uma postura conservadora. Na atualidade aqueles antigos parâmetros de conservadores de revolucionários, já não tem sentido. As experiências com o Socialismo Real mostraram que as mudanças e revoluções, muitas vezes, caem no totalitarismo.
Neste sentido pode-se dizer que a Globalização está sendo muito mais revolucionária, o processo de acumulação flexível, que tenta imprimir-se como dominante nas atividades industriais mais produtivas e lucrativas está tentando desregulamentar todas as relações trabalhistas conquistadas durante anos.
A teoria sociológica de inspiração marxista passou, após a queda do muro de Berlim, por uma fase de descrédito. O interessante de analisar é a relação entre a crítica que o marxismo fez durante anos ao capitalismo, os movimentos sindicais que muitos anos foram baseados nestas críticas estão bastante desgastados. Seria bom abordadar a reflexividade da teoria na prática dos movimentos e estes movimentos interferindo novamente na formulação teórica.
O que fica bem claro é que na atualidade não podemos nos fixar em uma teoria como se fosse uma doutrina. O marxismo também desprezou muitas concepções teóricas, criticou certas concepções positivistas, porém teve leis históricas com um caráter semelhante.
Em certos aspectos, conforme Giddens coloca, é muito importante rever os clássicos, as recentes discussões sobre o papel do Estado-de-bem-estar e os grupos de interesse e da sociedade organizada remontam à caracterização que Durkheim faz sobre solidariedade. Simplesmente rotular estas concepções como positivistas descaracteriza totalmente a originalidade e importância que elas têm.
Uma outra dúvida a ser levantada diz respeito a diferença entre uma teoria que pretenda explicar a dinâmica da sociedade, uma teoria geral, e um método de pesquisa para tentar entender como esta sociedade funciona. A teoria da estruturação de Giddens tem um caráter de uma teoria explicativa que tenta relacionar várias abordagens de uma forma lógica, porém fica-se em dúvida da forma como se trabalharia em termos de método de pesquisa.
Esta questão do método tem muitas implicações. Em linhas gerais, Marx, procurou basear-se na crítica à Economia Política, estudou a economia. Weber também teve tradição de estudo em economia e história. Durkheim faz uma sociologia que tenta basear-se em método empírico. Na atualidade fala-se em uma multideterminação, estudo multicultural. Qual a forma metodológica de abarcar esta estrutura complexa?
As propostas das teorias contemporâneas como de Habermas, Touraine, Giddens, Canclini, tentam a partir da observação das mudanças que vão ocorrendo, construir novas categorias que se tornam úteis na análise da sociedade. A passagem do padrão de acumulação fordista para o padrão de acumulação flexível com a conseqüente globalização e extensão do sistema financeiro internacional fazem necessário uma ainda melhor construção teórica de novas categorias. Na atualidade os mercados de futuros, a valorização maior dada a expectativa de que determinado negócio de resultados, o lucro advindo destas transações, mesmo que a expectativa inicial não se concretize, o ganho com a especulação continua.
Apesar de muitos erros que foram feitos pelos teóricos marxistas, a interpretação de ideologias não é um referencial que necessariamente tenha que ser descartado. Seria digno de nota uma análise que mostrasse como certas teorias são criticadas por serem totalidades e outras, como a globalização econômica, que se imprime como uma totalidade sem nenhum questionamento não recebe tal crítica.
Por fim, o momento atual não pode ser visto como de crise, mas de criatividade, a tentativa de construir novos referenciais teóricos, a relação entre o desenvolvimento histórico e desenvolvimento de novas abordagens deve ser permanente, pois do contrário estaríamos diante de fatos cristalizados que em nada correspondem a realidade. A realidade, praxis, sociedade, comunidade, etc. não passariam de meras abstrações, construções que somente seriam aplicáveis e estudadas em determinados círculos intelectuais sem se referirem às pessoas, suas relações sociais, sua vida cotidiana, com seus problemas suas vitórias e suas derrotas e ao contexto em que ocorrem.
[1] Mestre em Ciências Sociais Aplicadas – UNISINOS (2020)
Licenciada em Sociologia – UFRGS (1987)
Texto publicado em 1999
1 ARON, Raymond. As Etapas do Pensamento Sociológico. São Paulo: Martins Fortes, 1999, p. 8.
2 MARX, Karl. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Zahar, 1965, p.15, 16, 17, 18
3 MARX, Karl. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Zahar, 1965, p.34,35
4 MARX, Karl. A Ideologia Alemã. Rio de Janeiro: Zahar, 1965, p.74
5 DURKHEIM, Émile. As regras do Método Sociológico. In.: SOCIOLOGIA, RODRIGUES, J. A (Org). São Paulo: Editora Ática, 1998, p.47.
6 DURKHEIM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. In.: SOCIOLOGIA, RODRIGUES, J. A (Org). São Paulo: Editora Ática, 1998, p.82-83.
7 DURKHEIM, Émile. Da Divisão do Trabalho Social. In.: SOCIOLOGIA, RODRIGUES, J. A (Org). São Paulo: Editora Ática, 1998, p.85,90 e 91.
8 WEBER, Max. Economia Y Sociedad – Esbozo de sociologia comprensiva. México: Fundo de Cultura Económica, 1964, p.5 e 7.
9 WEBER, Max. Os três tipos puros de dominação legítima. In.: SOCIOLOGIA, COHN, Gabriel (Org). São Paulo: Editora Ática, 1986, p.130.
10 COHN, Gabriel, Introdução In.: SOCIOLOGIA- WEBER. São Paulo: Editora Ática, 1986, p.130.
11 TOURAINE, Alain. Crítica da Modernidade. Petrópolis: Vozes, 1998, p.87.
12 TOURAINE, Alain. El regreso del Actor. Buenos Aires: Editorial Universitária, 1987, p. 18, 20 e 24.
13 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa/Rio de Janeiro: DIFEL/Ed. Bertrand Brasil, 1989, p.8 e 10.
14 GIDDENS, Anthony. A Constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fortes, 1989, p. 2.
15 GIDDENS, Anthony. A Constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fortes, 1989, p.XXVII.
16 GIDDENS, Anthony. A Constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fortes, 1989, p.21.
17 HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência enquanto Ideologia. (1968). São Paulo: Abril Cultural, 1983, (Os Pensadores), p. 315.
18 HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência enquanto Ideologia. (1968). São Paulo: Abril Cultural, 1983, (Os Pensadores), p. 336.
19 HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência enquanto Ideologia. (1968). São Paulo: Abril Cultural, 1983, (Os Pensadores), p. 321.
20 HABERMAS, Jürgen. Técnica e Ciência enquanto Ideologia. (1968). São Paulo: Abril Cultural, 1983, (Os Pensadores), p. 337
21 CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da glogalização.Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, p.65-66.
22 CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da glogalização.Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, p.20, 36 e 37.
23 CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da glogalização.Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, p.151.