COMENTÁRIOS DE ALGUMAS CITAÇÕES DE MARX SOBRE ECOLOGIA

Por João Batista C. Sieczkowski

em 20 de setembro de 2024

            Há muita gente que acredita no capitalismo natural como solução das questões ecológicas. Tenho defendido em muitos textos que as questões ecológicas não reduzem a um problema de cifras ou apenas de economia. O capitalismo não está preparado para resolver as questões ambientais. O capitalismo sempre resolveu problemas internos do seu funcionamento, problemas que se reduziam a questões econômicas. Porém, questões ambientais nunca foram alvo de solução para o capitalismo. O capitalismo natural é uma tentativa de solução das questões ambientais sem, contudo, abrir mão da acumulação de capital, ou ainda, do lucro. Todo o agronegócio é uma exploração controlada. Os recursos naturais continuam ser usados exageradamente na produção. A produção continua a ser em larga escala para atender consumidores ávidos. Consumidores compram e desperdiçam. Em comprar e desperdiçar produzem lixo. O lixo do consumo é reutilizável para novamente entrar na cadeia produtiva.

            Aqui neste texto recolhemos algumas citações de Karl Marx sobre a questão ambiental de sua época – da Revolução Industrial. Nestas citações compreendemos como Marx pensava as questões ecológicas de sua época. Então, dos Manuscritos econômico-filosóficos de 1844:

O ser humano vive da natureza significa que a natureza é seu corpo, com o qual ele precisa estar em processo contínuo para não morrer. Que a vida física e espiritual do ser humano está associada à natureza não tem outro sentido do que afirmar que a natureza está associada a si mesma, pois o ser humano é parte da natureza (MARX, 1968: 516).

Vivemos em uma época que as questões ambientais se tornaram o foco central da existência humana. A existência humana depende da própria natureza porque somos parte da natureza. Somos parte da natureza porque nosso corpo material é composto dos mesmos elementos que a terra e tudo o mais no universo. Antes de existirmos, nossos átomos já eram compartilhados na natureza entre todos os seres animados e inanimados. Sendo assim, a interação entre homem e natureza é difícil de ser descartada. Se não houver um metabolismo entre o homem e a natureza, deixaremos de existir, morreremos. Todo o nosso ser está interligado a natureza. Fisicamente e espiritualmente de pendemos da natureza. Nosso primeiro encontro com um criador se faz por meio da natureza. Portanto, a natureza está envolvida entre si em um ciclo vital, e o indivíduo humano que faz parte dessa natureza, faz parte desse ciclo vital. Ora, quebra-se o ciclo vital quando o indivíduo e a espécie humano rompe sua relação de harmonia com a natureza. É a ruptura metabólica.

E assim nós somos lembrados a cada passo que, de forma alguma, dominamos a natureza como um conquistador domina um povo estrangeiro, como alguém que se encontra fora da natureza. Nós dependemos dela com carne, sangue e cérebro, estamos situados dentro dela e toda nossa dominação sobre ela, com a vantagem diante de todas outras criaturas, consiste em podermos conhecer suas leis e usá-las de forma adequada (ENGELS, 1973: 453).

A ruptura metabólica, ou seja, essa quebra da interação harmônica entre o homem como espécie e indivíduo com a natureza ocorreu e ocorre por que engolimos a ideologia da dominação e da conquista. As grandes navegações foram o exemplo histórico dessa forma de pensar, agir e viver. Para alguns, Francis Bacon foi o grande propagador da ideologia que dizia: Saber é poder. Mas, citando Bacon (1988, p.93): “A infeliz situação em que se encontra a ciência humana transparece até nas manifestações do vulgo. Afirma-se corretamente que o verdadeiro saber é o saber pelas causas”. Isso afirmava Aristóteles no seu livro sobre os “Analíticos Segundos” (I, 2, 71B) e é por aí que as ideias de Bacon vão. Bacon está preocupado em criticar a postura de Aristóteles com a lógica silogística. Portanto, é bem verdade que não existe citação de F. Bacon que diz “Saber é poder”. Não encontramos nem no “Novum Organum” de 1620. No entanto, muita gente se aproveitou disso. Indiferente desta questão, pois não cabe aqui discutir quem falou ou não tal frase, e vamos deixar isso para os exegetas de plantão, essa ideia de “Saber é poder” serviu de pano de fundo para a ideologia capitalista. E toda a situação atual de agir é reflexo dessa forma de pensar.

A dominação da natureza se assemelha a dominação de povos e culturas. Dominamos de forma que ignoramos que dependemos dela própria para viver. Podemos dominar a natureza para prover o nosso sustento ou para enriquecer, ou seja, por acumulação de capital, destruindo-a por simples ambição. Temos que reaprender a viver uns com os outros e com a natureza.

Quanto mais um país como os Estados Unidos da América, por exemplo, partir da grande indústria como base pra o seu desenvolvimento, tanto mais rápido será o processo de destruição. Nesse sentido, a produção capitalista somente desenvolve a técnica e a combinação do processo de produção social na mesma medida em que destrói as fontes de toda a riqueza: a terra e os trabalhadores (MARX, 1983a: 529-530).

A industrialização é a causa da destruição da natureza? A industrialização é o que impulsionou a destruição da natureza.  O começo da Revolução Industrial contou com mudanças na produção e em mudanças sociais como o aumento da população e geração de empregos. Porém, nenhum desses países estava preparado para enfrentar os problemas sociais, assim como hoje ninguém está preparado para dar conta das questões ambientais. A destruição da natureza é a consequência desse despreparo.

A Revolução Industrial foi a transição para novos processos de produção, na Grã-Bretanha, na Europa continental e nos Estados Unidos, a partir de c. 1760 até algum momento entre 1820 e 1840.Essa transição incluiu a passagem de métodos de produção manual para a produção mecânica, novos processos de fabricação de produtos químicos e metalúrgicos, o uso de energia a vapor e hidráulica, o desenvolvimento de máquinas-ferramentas e a ascensão do sistema fabril mecanizado. Além do aumento da produção, houve também, nesse período, um crescimento populacional sem precedentes. A indústria têxtil foi dominante da Revolução Industrial, em termos de geração de emprego, valor da produção e volume de capital, além de também ter sido a primeira a usar os novos métodos e técnicas[1]

As consequências da Revolução Industrial foram a substituição do trabalho humano por máquinas; a ampliação do êxodo rural e intensificação do crescimento urbano desenfreado; o aumento significativo da produção de bens de consumo; a organização da sociedade em novos grupos sociais: a burguesia e o proletariado. Contudo, os maiores efeitos da Revolução Industrial de 1760 foi na agricultura. Diz Marx:

A moral da história (que também se pode constatar pela consideração da agricultura de outra forma) é a de que o sistema capitalista contraria uma agricultura racional ou que a agricultura racional é incompatível com o sistema capitalista (mesmo que esse estimule seu desenvolvimento técnico), carecendo ou da mão do pequeno agricultor que trabalha de forma autônoma ou do controle do produtor livremente associado (MARX, 1983b: 131).

Vemos hoje a agricultura familiar sofrendo pressões dos donos do capital. Não é por menos. A agricultura familiar vai na contramão do agronegócio, pois não se trata de salvar o capital antes da satisfação das necessidades das pessoas, mas se trata primeiro da sobrevivência das pessoas. “A agricultura familiar é um tipo de agricultura praticada em pequenas propriedades de terra nas quais mais da metade da mão de obra é formada por membros de um mesmo grupo familiar. Essa família é a responsável pela gestão do estabelecimento familiar e, além disso, parte de sua renda advém das atividades ali desenvolvidas.”[2] E ainda mais: “A agricultura familiar representa quase 80% de todos os estabelecimentos rurais no Brasil, abastecendo o mercado interno com gêneros como arroz, feijão, café, verduras e frutas variadas. Essa atividade é desempenhada em harmonia com os recursos naturais, principalmente o solo, tornando-a importante para o avanço da sustentabilidade ambiental no campo.”[3] É óbvio que uma agricultura assim não diz nada sobre aumentar os lucros ou acumular capital. O agronegócio, por sua vez, dominante no sistema capitalista:

O agronegócio, também conhecido por agrobusiness, compreende as atividades econômicas ligadas à agropecuária, ao manejo de florestas para comércio e serviços (silvicultura) e ao extrativismo vegetal. Esse termo foi cunhado na década de 1950, mas popularizou-se na década de 1970, no auge da Revolução Verde. Todas as empresas que fornecem insumos agrícolas aos agricultores, remédio ao gado e máquinas para a agricultura e os bancos que fornecem empréstimos financeiros aos grandes empresários do campo também está relacionados com o agronegócio[4]

Há diversos impactos ambientais causado pelo agronegócio que objetiva o lucro, entre estes: (a) desmatamento e queimadas para colocar no lugar a lavoura e o pasto; (b) contaminação do solo por agrotóxicos e fertilizantes; (c) erosão e desgaste do solo para uso de lavoura e de pasto, termina com este recurso renovável. Entre os impactos sociais podemos enumerar: (a) desemprego e o êxodo rural devido ao uso de máquinas em substituição da força de trabalho humana; (b) doenças provindas do uso de agrotóxicos nos alimentos; (e) conflitos agrários pela posse de terras, por exemplo, de indígenas, etc.; (f) concentração de renda e desigualdade no meio rural. Como diz Marx, essa é a arte de expropriação do trabalhador, ou seja, não é só tomar posse das terras que não são suas, mas tirar quem lá está morando há muito tempo.

Cada progresso da agricultura capitalista não é somente um progresso na arte de expropriar o trabalhador, mas, ao mesmo tempo, na arte de expropriar o solo; cada progresso em aumento da sua fertilidade por um determinado tempo é, ao mesmo tempo, um progresso na ruína da fonte da sua fertilidade a longo prazo. (…) A redução da produtividade do solo em função de sucessivos investimentos de capital pode ser comprovada com base em Liebig (MARX, 1983a: 529; 1968: 753).

A expropriação não é só do trabalhador, mas também do solo, da natureza. O capitalista do agronegócio expropria a natureza do seu lugar. Biomas são destruídos em queimadas e desmatamentos, animais e vegetais são sacrificados de forma implacável pela ganância de lucro, de capital. Isso se repete continuamente, sem parar e sem se medir as consequências do desgaste do solo e do trabalhador.

No Brasil, o capitalismo natural é a ideologia dominante. A ideologia dominante é o agronegócio. Estes querem criar uma pseuda-harmonia entre capital e natureza. Mas, não tem como haver compatibilidade entre capital e a natureza. Em conclusão, ou se privilegia a obtenção de lucro, ou se cuida dos recursos naturais. Para que a natureza viva é preciso rebaixar a ideologia do capital. Não há coexistência harmoniosa entre capital e a natureza. A ruptura metabólica, neste sentido, é inevitável.


[1] Revolução Industrial – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

[2] Agricultura familiar: o que é e como funciona – Brasil Escola (uol.com.br)

[3] Agricultura familiar: o que é e como funciona – Brasil Escola (uol.com.br)

[4] Agronegócio: o que é, características, setores – Brasil Escola (uol.com.br)

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